A Justiça de Mato Grosso do Sul determinou a soltura de David Cloky Hoffman Chita, apontado pelas investigações como um dos principais articuladores de um esquema de corrupção no Departamento Estadual de Trânsito (Detran-MS). Ele ficou preso por cerca de cinco meses, após passar mais de dois anos foragido.
A decisão da juíza Eucelia Moreira Cassal impõe medidas cautelares, incluindo uso de tornozeleira eletrônica por 180 dias, proibição de frequentar unidades do Detran e restrição de contato com outros investigados no caso.
David foi preso em dezembro do ano passado, quando foi localizado pelo Garras em sua residência, em Campo Grande, após permanecer foragido por aproximadamente dois anos.
A investigação interna revelou 29 liberações irregulares de restrição em curto período, com destaque para 27 associadas ao login de um servidor em um dia em que ele não estava disponível para atuação, indicando possível fraude. Destas, 26 ocorreram em apenas uma hora.
A apuração aponta ainda que Y. O. C. estaria utilizando computador do setor de forma indevida. O servidor que fez a denúncia relatou que utilizou sua senha pessoal no equipamento para atender solicitação de uma servidora, que buscava consultar débitos de terceiros.
No avanço das investigações, a polícia identificou que 25 baixas teriam sido realizadas por David Hoffamam Chita e uma por H. R. Segundo o inquérito, há indícios de participação de despachantes nas liberações indevidas, já que os veículos tiveram alterações realizadas no dia anterior aos registros no sistema.
Outras duas ocorrências de baixas irregulares foram registradas em 15 de fevereiro, quando o servidor novamente acessou o computador para auxiliar a servidora em uma função operacional.
O caso também envolve cobrança de valores a proprietários de veículos. Um deles relatou ter recebido ligação de um despachante de São Paulo, identificado como Charles, exigindo R$ 10 mil para regularização após a retirada da restrição. O proprietário acionou advogado e o Detran foi comunicado. Dias depois, recebeu nova ligação com ameaça de reinstalação da restrição caso não houvesse pagamento.
Segundo a polícia, o despachante afirmou que precisava do valor para “pagar os caras”, o que indica a existência de outros envolvidos na execução do esquema. A análise de áudios e comunicações aponta indícios de que o autor das mensagens seria David Chita.
“Assim, de maneira ainda mais clara, foram identificadas suspeitas de envolvimento do despachante David. Apenas pelo áudio constam fortes indícios da participação de David nas baixas indevidas de restrições, na cobrança de valores e no pagamento de comparsas para a efetivação da fraude”, registra o relatório policial.
As investigações também apontam relacionamento afetivo entre Chita e uma servidora do órgão, com suspeitas de vantagens financeiras, presentes e uso de terceiros para movimentações bancárias. Uma amiga da servidora confirmou o vínculo e apresentou registros de conversas e imagens.
Segundo essa testemunha, a servidora teria recebido itens como iPhone 15 Pro Max, televisão, ar-condicionado, anel e outros presentes, além de transferências financeiras que somam cerca de R$ 7,8 mil via Pix, em contas de terceiros ligados ao investigado.
Ainda conforme o inquérito, a servidora teria utilizado indevidamente senhas de outros funcionários, incluindo delegados, para acessar o sistema interno do Detran-MS.
A investigação também destaca que o esquema teria origem em fraudes anteriores envolvendo mais de 2 mil veículos, relacionadas à regularização indevida de caminhões com quatro eixos, conforme relatório da COTRA.
Segundo os investigadores, o modelo teria evoluído para um novo formato de atuação, com retirada irregular de restrições já impostas. “Os criminosos especializaram-se e agora estão obtendo lucro através da retirada indevida das restrições”, aponta o documento.
Há ainda indícios de que David teria participado da emissão de guias de pelo menos cinco veículos envolvidos no esquema, fato apurado em investigação na 2ª Delegacia de Ponta Porã. Ele já foi alvo de mandado de busca e apreensão no processo 0000430-79.2023.8.12.0019.
O investigado também responde como réu em duas ações penais por inserção de dados falsos em sistemas do Detran-MS, com base no artigo 313-A do Código Penal, em processos que tramitam na Justiça estadual.
Em outra frente, David Cloky também foi citado em investigação da 4ª Vara Criminal de Campo Grande, relacionada a um suposto roubo de R$ 300 mil ocorrido em 2017, envolvendo valores que, segundo denúncia do Ministério Público, seriam ligados a esquema de delação premiada na Operação Vostok, que apurou pagamento de propina envolvendo a JBS e políticos de Mato Grosso do Sul.
Com a decisão judicial mais recente, o investigado passa a responder ao processo em liberdade monitorada. As investigações seguem em andamento para identificar outros possíveis envolvidos, incluindo servidores públicos e intermediários do esquema.
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