Série da Netflix revisita a conquista do tri de 1970 e chega às vésperas da Copa de 2026. ( Foto: Netflix/Divulgação)Às vésperas da Copa do Mundo de 2026, a conquista mais emblemática da história da Seleção Brasileira volta ao centro da conversa em formato de série. Já disponível na Netflix, ‘Brasil 70: A Saga do Tri’ revisita a campanha que levou o Brasil ao terceiro título mundial, no México, e chega com uma aposta clara: usar a memória afetiva do futebol para recolocar o torcedor no clima da Copa.
Com oito episódios, a produção mergulha nos bastidores de uma equipe que entrou em campo cercada por desconfiança, mas terminou eternizada como uma das maiores da história do futebol. A série acompanha personagens centrais daquela trajetória, como Pelé, Zagallo e Tostão, e tenta mostrar como talento, pressão, patriotismo e até superstições atravessaram a caminhada até o tricampeonato.
O momento de lançamento não foi por acaso. A produção foi pensada para chegar ao público pouco antes do início da próxima Copa do Mundo, justamente numa tentativa de reacender a conexão entre a Seleção e a torcida brasileira. A ideia, segundo os criadores, era colocar no ar uma obra capaz de celebrar o futebol como patrimônio cultural do país e, ao mesmo tempo, funcionar como gatilho emocional para um torcedor que hoje vive uma relação mais distante com a equipe nacional.
Uma das criadoras da minissérie, Naná Xavier explicou que a memória da Copa de 1970 já fazia parte de sua vivência antes mesmo do projeto sair do papel. “Meu pai contava muitas histórias sobre a Copa de 1970, era um momento que fazia parte do nosso convívio”, afirmou. Sobre o lançamento às vésperas da Copa, ela resumiu a intenção da equipe: “A ideia de lançar antes da Copa foi uma estratégia coletiva nossa, justamente com essa intenção de [lançar] algo que trouxesse a torcida de volta para perto da seleção, que celebrasse o futebol como um patrimônio cultural do Brasil mesmo.”
Esse ponto ajuda a explicar o gancho central da produção. Mais do que apenas reconstruir um título histórico, a série tenta dialogar com o presente. A leitura feita por seus realizadores é que a Seleção chega à Copa de 2026 cercada por um ambiente de desconfiança que, em alguma medida, lembra o cenário enfrentado pelo time de 1970 antes de levantar a taça. É nessa comparação entre passado e presente que a obra busca encontrar força.
O diretor Paulo Morelli reforçou essa intenção ao comentar os bastidores do projeto. Segundo ele, havia uma vontade clara de usar a minissérie para aquecer o ambiente em torno da Seleção nas semanas que antecedem o Mundial, que será disputado nos Estados Unidos, no México e no Canadá. Ao mesmo tempo, essa estratégia trouxe um desafio grande de produção, já que a equipe precisou acelerar o processo para colocar a série no ar dentro da janela pensada.
“Tinha um ano e meio entre a aprovação e a Copa. Então a gente começou a fazer roteiro e já começou a pesquisa de locação e elenco. Foi uma correria que a gente nunca passou”, contou.
A pressa, no entanto, não reduziu a complexidade do trabalho. Um dos principais obstáculos esteve na formação do elenco. Como a série recria figuras muito conhecidas do futebol brasileiro, a equipe precisava encontrar atores que se aproximassem fisicamente dos personagens históricos, mas que também dessem conta da interpretação e, principalmente, do futebol dentro de campo.
Rafael Dornellas, um dos criadores da produção, explicou que essa busca foi uma das etapas mais difíceis. “Talvez esse seja um dos maiores desafios [que enfrentamos], porque tínhamos que encontrar pessoas que eram parecidas fisicamente com as pessoas retratadas, mas que tinham que saber atuar, tinham que ser atores e saber jogar futebol, porque a gente ia reproduzir as jogadas em campo.”
Ele acrescentou que o processo foi longo e exigente até chegar aos nomes considerados ideais. “Então é todo um conjunto de fatores, então foi um processo muito grande, muito longo, muito complexo e que foi maravilhoso ver. A gente foi chegando e vendo as pessoas, não só parecidas, mas com excelentes atores, grandes jogadores de futebol, foi muito legal.”
A preocupação com o realismo não ficou restrita à escolha do elenco. Outro eixo importante da série foi a tentativa de reproduzir em campo lances e sensações que fazem parte do imaginário brasileiro, inclusive para quem nem viveu a Copa de 1970. Isso exigiu uma construção visual específica, capaz de recriar não só as jogadas, mas também a atmosfera daquela época.
Pedro Morelli destacou que filmar futebol de forma convincente foi uma responsabilidade central do projeto. “Fizeram pouquíssimos filmes de futebol no Brasil e com certeza não fizeram nenhum que tivesse tanto futebol”, afirmou. Segundo ele, a proposta era construir uma estética que remetesse aos anos 1970, tanto no uso da câmera quanto na textura da imagem.
“A gente tinha uma grande responsabilidade de filmar o futebol de um jeito plástico, lindo, que tivesse uma pegada dos anos 1970. A gente usa muito a linguagem de câmera dos anos 1970, com a textura, a película, as cores, a brincadeira com o zoom…”
Mais do que reproduzir jogadas conhecidas, a série queria colocar o público dentro delas. Pedro explicou que a ideia era aproximar a câmera do jogo para transmitir a tensão da partida, a troca de olhares entre os atletas e a construção coletiva das jogadas. “A gente queria ter a câmera perto do jogador, sentir o cara respirar, sentir a pressão que o cara tá sentindo, ver aquele estádio em volta dele, entender a troca de olhares entre os jogadores, a troca de passes, como uma jogada é construída, entender a ‘geografia’ de uma jogada por dentro dela. Acho que esse foi o maior desafio.”
Essa tentativa de mergulhar no jogo por dentro ajuda a sustentar a proposta emocional da série. Em vez de se apoiar apenas no peso histórico do tricampeonato, a produção tenta fazer com que o público reviva a campanha como experiência, num momento em que a relação entre a Seleção e parte da torcida anda mais fria do que em outras épocas.
Paulo Morelli também apontou semelhanças simbólicas entre o cenário que antecedeu o tri e o ambiente em torno do Brasil hoje. Para ele, havia em 1970 uma sensação de desconfiança parecida com a atual. “Todo mundo achava que a gente não tinha a menor chance, coisa que está parecendo o que está acontecendo agora”, disse.
O diretor ainda chamou atenção para uma coincidência que, na visão dele, alimenta o imaginário do torcedor. Ele lembrou que houve um intervalo de 24 anos entre o tricampeonato de 1970 e o tetra de 1994, o mesmo período que separou o penta, conquistado em 2002, da Copa de 2026. “Tem uma mística dos 24 anos, que faz com que a gente tenha um pouco mais de esperança, de que, dessa vez, a gente pode sair das cinzas de novo e trazer o troféu.”
É justamente nessa mistura de passado glorioso, memória afetiva e expectativa pelo futuro que ‘Brasil 70: A Saga do Tri’ tenta se firmar. A série não chega apenas como mais um conteúdo esportivo de catálogo. Ela entra no streaming em um momento calculado, com a missão de mexer com a lembrança de uma geração e, ao mesmo tempo, despertar curiosidade em quem conhece o tri apenas pelos livros, pelas imagens históricas ou pelos relatos de família.
Ao revisitar uma Seleção que saiu desacreditada e terminou campeã, a produção procura oferecer ao torcedor mais do que nostalgia. A mensagem de fundo parece ser a de que a camisa da Seleção ainda carrega histórias capazes de mobilizar o país, mesmo em um momento de relação mais cautelosa entre time e torcida.
Se a série vai conseguir, de fato, recolocar o público no clima da Copa, isso ainda depende da resposta de quem assistir. Mas a estratégia está posta: lembrar ao torcedor que, antes de qualquer frustração recente, houve um time que transformou futebol em identidade nacional. E que, em ano de Mundial, essa memória sempre volta a ganhar força.
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