Queda no custo das baterias e pressão sobre o petróleo ampliam espaço para energias renováveis no mundo. (Foto: Ruth Fremson)A crise global do petróleo começou a fortalecer um setor que, até pouco tempo, ainda era visto com desconfiança por causa da intermitência: o das energias renováveis. Em meio ao encarecimento dos combustíveis fósseis e às tensões geopolíticas que afetam o abastecimento mundial, fontes como solar e eólica passaram a ganhar novo impulso, apoiadas pela queda no custo das baterias e por avanços tecnológicos que ampliam a capacidade de oferta contínua de eletricidade.
O argumento central aparece em um novo relatório da Agência Internacional de Energia Renovável, que mostra como a combinação entre geração limpa e armazenamento vem mudando o jogo. A principal fragilidade dessas fontes, a dependência de sol e vento, perdeu peso à medida que os sistemas de bateria ficaram mais baratos e eficientes. Segundo o estudo, os custos de armazenamento caíram 93% desde 2010, abrindo espaço para projetos capazes de entregar energia previsível e, em muitos casos, mais barata do que a produzida com combustíveis fósseis.
A discussão ganhou força em um contexto de pressão sobre o mercado global de energia. Com o Estreito de Ormuz praticamente paralisado, uma das principais rotas de circulação de petróleo do mundo passou a representar um novo foco de risco para o abastecimento internacional. Nesse ambiente, defensores da transição energética enxergam uma oportunidade para acelerar a substituição de fontes fósseis por alternativas renováveis.
O relatório também reforça que essa mudança não depende apenas de discurso climático. Em vários casos, ela já começa a fazer sentido econômico. A China, por exemplo, aparece com os menores custos de energia solar do mundo, e alguns projetos já conseguem entregar eletricidade por cerca de metade do preço do gás. Até em países com forte presença de combustíveis fósseis, como a Arábia Saudita, a energia solar passou a disputar espaço de forma mais competitiva.
Outro sinal desse movimento é o aumento das exportações chinesas de painéis solares, que bateram recorde em março. Países como Nigéria, Índia e Austrália ampliaram compras, enquanto Europa e Ásia registraram avanço nas vendas de veículos elétricos e de bombas de calor, indicando que a mudança não está concentrada em um único mercado.
Ainda assim, o cenário não é tratado como uma solução imediata para todos os efeitos da crise energética. Grandes projetos solares e eólicos levam anos para entrar em operação, e setores como aviação e produção de cimento continuam sem alternativas prontas aos combustíveis fósseis. Além disso, muitos países ainda não têm estrutura nem recursos para promover uma transição acelerada em seus sistemas elétricos.
O diferencial do momento está menos na promessa de curto prazo e mais na mudança de direção. O choque no petróleo reacende uma discussão que vai além do preço da gasolina ou do diesel: a dependência energética. À medida que as renováveis se tornam mais competitivas e mais estáveis, cresce a pressão para que governos e empresas repensem o peso estratégico do petróleo em suas matrizes.
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