Resolução nº 2.461/2026 veta uso da substância em procedimentos estéticos e reparadores em todo o Brasil. A única exceção é para tratamento de lipodistrofia em pacientes com HIV/Aids no SUS.
A morte da maquiadora sul-mato-grossense Roseli Fernandes de Oliveira Romeiro Vieira de 48 anos, 24h após a aplicação de 300ml de PMMA retomou a discussão sobre os perigos da substância e provocou reação do Conselho Federal de Medicina.
O Conselho Federal de Medicina (CFM) proibiu, nesta sexta-feira (29/05), o uso de PMMA (polimetilmetacrilato) como substância preenchedora em procedimentos estéticos e reparadores em todo o Brasil.
A medida, que entra em vigor na próxima terça-feira (02/06), foi anunciada três dias após a morte da maquiadora sul-mato-grossense Roseli Fernandes de Oliveira Romeiro Vieira, de 48 anos, que passou mal e faleceu após aplicação do produto em clínica de São Paulo.
A proibição está prevista na Resolução nº 2.461/2026, que será publicada no Diário Oficial da União no dia 2 de junho.
A nova norma impede médicos de utilizarem PMMA tanto para fins estéticos quanto reparadores. A única exceção vale para pacientes com HIV/Aids que necessitam de tratamento para lipodistrofia — condição caracterizada pela perda anormal de gordura corporal — e apenas em unidades de alta complexidade credenciadas pelo SUS, seguindo protocolos do Ministério da Saúde.
O que é PMMA e por que é perigoso
O PMMA é formado por microesferas sintéticas permanentes suspensas em gel. Diferentemente de preenchedores reabsorvíveis, como o ácido hialurônico, o material não é absorvido pelo organismo e permanece no local da aplicação indefinidamente. Por isso, quando ocorrem complicações, a retirada costuma ser complexa e muitas vezes exige novas cirurgias.
Especialistas alertam há anos que o uso de PMMA para fins estéticos pode provocar infecções graves e choque séptico, embolias (obstrução de vasos por partículas do material), inflamações crônicas e granulomas, deformações permanentes na região aplicada e até morte, em casos de complicações sistêmicas como parada cardiorrespiratória.
O presidente do CFM, José Hiran da Silva Gallo, afirmou em nota que a medicina dispõe atualmente de alternativas consideradas mais seguras e que estudos e relatos acumulados ao longo dos anos demonstraram que os riscos do PMMA superam seus possíveis benefícios.
Hall do prédio em SP onde fica a clínica que realizou o procedimento estético em Roseli, inserindo 300 ml de PMMA nos glúteos. Roseli chegou desacordada ao local e morreu ali.
Morte de Roseli reacende debate e acelera decisão
Roseli Fernandes viajou de Jardim, Mato Grosso do Sul, para São Paulo e realizou procedimento estético nos glúteos e na parte posterior das coxas em clínica no bairro Brooklin, zona sul da capital. Segundo a imprensa paulista, ela teria pago cerca de R$ 50 mil pela intervenção.
Aplicados 300 ml de PMMA nas regiões, no dia seguinte Roseli começou a sentir dores intensas, falta de ar, mal-estar e taquicardia. Durante o deslocamento de volta à clínica, perdeu a consciência dentro de um carro de aplicativo. Imagens de câmeras de segurança mostram a paciente chegando desacordada ao edifício do consultório e falecendo no hall do prédio, mesmo com tentativas de reanimação na manhã de terça-feira (26/05).
O caso é investigado pela Polícia Civil de São Paulo, que aguarda laudos do IML para determinar a causa da morte e verificar a relação com o procedimento. Um dia após o óbito, o filho da vítima, Emerson Vieira Júnior, cobrou justiça em vídeo à imprensa: Espero esclarecimentos sobre o caso e pedimos responsabilização dos envolvidos caso sejam constatadas irregularidades.
Em 2024, a influenciadora digital Aline Ferreira morreu após preenchimento nos glúteos com PMMA e de ter ficado 9 dias internada.
Mais mortes associadas ao PMMA antes de 2026
Roseli não foi a única vítima. Casos fatais recentes confirmam o padrão de risco. Em 2024, a influenciadora digital Aline Ferreira morreu após preenchimento nos glúteos com PMMA. Aline permaneceu internada por 9 dias e não resistiu. Em janeiro de 2025, Adriana Barros Lima Laurentino, de 46 anos, morreu horas após procedimento semelhante em clínica do Recife; o médico foi preso preventivamente. Em 2025, a empresária Grazielly da Silva Barbosa tornou-se ré por provocar a morte de Aline Ferreira — ela se passava por biomédica e a clínica não tinha alvará.
Posicionamento da Anvisa e da Sociedade Brasileira de Dermatologia
A Anvisa ainda não proibiu a comercialização do PMMA, mas mantém restrições rigorosas. Em informe de segurança publicado em 2026, a agência reforçou que o PMMA não possui indicação para aumento de volume corporal exclusivamente por motivos estéticos e alertou sobre riscos de uso off label (fora das indicações aprovadas em bula).
A agência também proibiu manipulação em farmácias de quaisquer produtos à base de PMMA, incluindo preenchedores e bioestimuladores para uso estético.
A Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) manifestou apoio à proibição do CFM e voltou a defender o fim do uso da substância em procedimentos estéticos devido ao potencial de causar complicações graves.
O que muda para pacientes e profissionais
A partir de 2 de junho de 2026, médicos não poderão mais utilizar PMMA em procedimentos estéticos ou reparadores no Brasil. A decisão vale apenas para médicos; a regulamentação da Anvisa sobre a comercialização segue separada.
Para pacientes, o alerta é claro:
Não faça procedimentos com PMMA em glúteos, coxas, pernas, rosto ou qualquer outra região. Exija conhecer o nome e os componentes do produto antes de qualquer aplicação.
Prefira preenchedores reabsorvíveis, como ácido hialurônico, com registro na Anvisa e indicação aprovada para a região. Desconfie de preços muito baixos ou de clínicas que não oferecem informações claras sobre o material usado.
Se sentir dor intensa, falta de ar, febre, inchaço desproporcional ou manchas após procedimento, procure atendimento médico imediatamente.
Por que essa decisão pode salvar vidas
A proibição do CFM responde a anos de alertas de especialistas e a uma série de mortes evitáveis. O uso de PMMA para estética representa risco desnecessário quando há alternativas mais seguras disponíveis. Ao vetar o procedimento, o conselho protege pacientes de complicações graves e de um material que, uma vez injetado, não pode ser totalmente removido.
A decisão do CFM é um marco importante para a segurança da paciente brasileira. Agora, a expectativa é que a Anvisa acompanhe a medida com restrições definitivas à comercialização e uso do PMMA fora das exceções terapêuticas aprovadas.
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