CNC afirma que avanço das bets compromete renda das famílias e afeta vendas do comércio. (Foto: Alexandre Meneghini)As apostas esportivas e jogos online passaram a ocupar espaço crescente no orçamento das famílias brasileiras e, na avaliação da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, esse avanço já afeta diretamente o varejo. Segundo a CNC, de janeiro de 2023 a março de 2026, a inadimplência associada aos gastos com bets retirou R$ 143 bilhões do comércio, valor equivalente ao volume de vendas registrado nos períodos de Natal de 2024 e 2025.
A entidade cita que o problema deixou de ser pontual e passou a ter impacto mais amplo sobre o consumo. A leitura é que o dinheiro destinado às plataformas de apostas reduz a renda disponível para o pagamento de contas e enfraquece a capacidade de compra das famílias. Com menos espaço no orçamento, despesas consideradas não essenciais são as primeiras a sofrer corte, mas até gastos importantes podem ser afetados em momentos de aperto.
O crescimento do gasto mensal com plataformas eletrônicas superou R$ 30 bilhões por mês no período analisado. A confederação estima ainda que esse movimento pode ter levado 270 mil famílias a uma situação de inadimplência severa, marcada por atrasos de 90 dias ou mais. Para a entidade, as bets já representam um risco à saúde financeira do consumidor e também ao desempenho do comércio.
O economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, afirma que o peso das apostas aparece justamente quando o orçamento fica mais pressionado. Segundo ele, em um cenário de endividamento, a tendência é que o consumidor abra mão de compras e adie despesas que antes fariam parte da rotina. Na prática, isso reduz a circulação de dinheiro em setores do varejo e esfria parte do consumo.
A análise da CNC também aponta diferença de impacto entre grupos sociais. Segundo a entidade, homens, famílias de baixa renda, pessoas com mais de 35 anos e consumidores com maior escolaridade aparecem entre os mais vulneráveis aos efeitos das apostas sobre o endividamento. No caso das famílias de renda mais alta, a avaliação é que as bets também afetam o orçamento ao deslocar recursos que poderiam ser usados para honrar outros compromissos.
O presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, afirma que o debate precisa avançar sobre os limites da publicidade e sobre mecanismos de proteção ao consumidor. Para a entidade, o crescimento das apostas já produz reflexos econômicos mais amplos e exige resposta do poder público.
O setor de apostas reagiu. O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável, que representa plataformas legalizadas no país, notificou formalmente a CNC e cobrou transparência metodológica e acesso integral às bases de dados usadas no estudo. O instituto afirma que as conclusões da entidade são alarmistas e diz que os números não se alinham aos dados oficiais.
A Associação Nacional de Jogos e Loterias também contestou o levantamento. Segundo a entidade, a CNC desconsidera o caráter multifatorial do endividamento das famílias brasileiras e apresenta números que, na visão do setor, não condizem com os dados do governo e do mercado. O embate expõe que, além do avanço das bets, cresce também a disputa sobre o tamanho real do impacto delas na economia doméstica.
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