Estudo mostra que árvores ajudam a reduzir o calor nas cidades, mas efeito ainda é desigual. (Foto: Daniel Teixeira)As árvores ajudam a reduzir o calor nas cidades, mas esse benefício ainda chega de forma desigual pelo mundo. Um estudo que analisou quase 9 mil centros urbanos mostrou que a cobertura arbórea neutraliza quase metade do aquecimento provocado pelo asfalto, pelos telhados e pelos prédios, embora o efeito seja menor justamente nas cidades mais quentes e mais pobres.
Na média global, as árvores reduzem a temperatura urbana em 0,15 grau Celsius, segundo a pesquisa publicada na revista Nature Communications. Sem essa cobertura, o aquecimento médio nas cidades seria de 0,31 grau Celsius por causa do efeito de ilha de calor urbana, quando superfícies escuras e estruturas urbanas absorvem e retêm mais calor.
O dado reforça a importância da arborização nas áreas urbanas, mas também expõe um problema: onde o calor extremo mais aperta, o resfriamento gerado pelas árvores ainda é insuficiente. De acordo com o estudo, cerca de 185 milhões de pessoas em 31 das maiores cidades do planeta já sentem um resfriamento médio de pelo menos 0,3 grau Celsius. Ainda assim, em muitos grandes centros urbanos pobres esse alívio mal chega.
Os pesquisadores analisaram trechos de cidades equivalentes a cerca de 150 quarteirões por vez. A ideia foi medir com mais precisão o impacto local das árvores, evitando distorções em que áreas muito arborizadas compensassem regiões densamente urbanizadas e sem verde.
O principal autor do estudo, Rob McDonald, cientista da Nature Conservancy, afirmou que o resultado revela uma desigualdade urbana importante. Em 20 cidades com pelo menos 3 milhões de habitantes, o resfriamento gerado pelas árvores é inferior a 0,05 grau Celsius. Em quatro delas — Dakar, Jeddah, Cidade do Kuwait e Amã — a cobertura arbórea é tão baixa que o efeito é praticamente nulo para mais de 15 milhões de moradores.
“Existe essa desigualdade”, disse McDonald. “Quando se olha para as cidades globalmente, há muitas, muitas cidades, especialmente em países em desenvolvimento, que têm cobertura arbórea muito baixa.”
No outro extremo, estão cidades com forte presença de árvores e maior capacidade de resfriamento. Entre os destaques aparecem Berlim, Atlanta, Moscou, Washington, Seattle e Sydney. O estudo aponta que quase 40% das cidades em países ricos conseguem alcançar resfriamento de pelo menos 0,25 grau Celsius com cobertura arbórea. Nas nações mais pobres, esse índice fica abaixo de 9%.
A pesquisa também mostra que plantar árvores ajuda, mas não resolve sozinho a crise climática. Segundo os autores, mesmo com ampliação da cobertura verde, limitações de água, espaço disponível e espécies adequadas impedem que essa estratégia dê conta de todo o problema. Na melhor hipótese, a arborização reduziria em até 20% o aquecimento urbano futuro.
“As árvores não nos salvarão das mudanças climáticas”, afirmou McDonald.
Ainda assim, os pesquisadores destacam que ampliar a presença de árvores nas cidades segue sendo uma medida importante. Além de ajudar a aliviar o calor, a arborização traz ganhos para a qualidade de vida, a saúde pública e o equilíbrio ambiental urbano. O estudo, no entanto, deixa um recado claro: os benefícios das árvores precisam chegar também às áreas mais vulneráveis, onde o calor extremo pesa mais e a proteção ainda é menor.
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