Existe uma coragem muito específica em Mortal Kombat 2 (2026). A coragem de não ter vergonha de ser exatamente aquilo que ele é. E isso, hoje em dia, é raro.
O novo filme, lançado no último dia 7 no Brasil, entende perfeitamente o tipo de público que está sentado na sala de cinema.
Ele não tenta parecer sofisticado e muito menos parecer “realista”. Pelo contrário, essa sequência dirigada por Simon McQuoid abraça o exagero, cafonice, humor ácido, golpes “apelões”, frases de efeito e toda aquela energia noventista-caótica que é a cara da franquia.
E o mais impressionante… Funciona. E como funciona.

É um filme feito para quem jogou os games, para quem cresceu vendo Mortal Kombat e até mesmo para quem assistiu à sequência de 1997 sabendo exatamente o nível de cafonice que aquilo representava mesmo para aquela época. Existe aqui um sentimento muito claro de redenção para os fãs que saíram frustrados da versão de 2021. Dessa vez, o filme parece finalmente entender o espírito da marca.
E talvez o maior símbolo disso seja Johnny ‘fodão‘ Cage, interpretado muito bem pelo Karl Urban. O cara nasceu para esse papel. E vou te dizer uma opinião bem pessoal: achei melhor que o Cage feito em 1995 por Linden Ashby.

Desde os primeiros minutos, ele rouba a cena. Existe uma canastrice tão natural na atuação que chega a ser difícil entender onde termina o ator e começa o personagem. E essa dúvida é ótima. Porque Johnny Cage sempre foi exagerado, convencido, teatral, performático e completamente deslocado da realidade dele.
E o diretor Simon McQuoid sabe disso e usou muito disso a seu favor.
Aliás, tudo aqui parece ter sido pensado para resgatar a sensação dos games. Os cenários lembram arenas clássicas, os cortes abertos durante as lutas remetem diretamente à linguagem dos jogos e as recriações de golpes funcionam quase como um presente para quem conhece cresceu jogando Mortal Kombat, Street Fighter ou o insuperável (mais uma vez minha opinião) Tekken (mas isso é assunto para outra hora).


E isso é puro cinema de entretenimento.
As lutas têm peso, impacto e personalidade. A sequência envolvendo Liu Kang, por exemplo, entrega uma das melhores cenas do filme e finalmente dá ao personagem um momento realmente memorável, já que ele começou bem apagado nessa sequência.

Mas talvez um dos maiores acertos esteja justamente onde muita gente poderia criticar: na dublagem feita pelo estúdio IDF.
Expressões exageradas, frases populares, piadas quase “apelonas” e tiradas completamente absurdas ajudam a aproximar o público brasileiro daquele clima descompromissado. Em alguns momentos fica over? Fica. Mas isso também faz parte da experiência. A sessão inteira ria, reagia, comentava. Era aquele tipo raro de filme em que o público realmente se diverte junto.
E isso tem valor.
Existe também uma crítica interessante sobre o desgaste do cinema de ação moderno. Por mais que as bilheterias de John Wick (2014), provem o contrário, a situação não é a mesma coisa para quem cresceu vendo filmes do icônico Chuck Norris ou então, se rendeu ao Bryan ‘fodão’ Mills em Busca Implacável (Taken) (2008). O filme ironiza fórmulas atuais, brinca com clichês e parece entender que aquele estilo hiper sério de blockbuster já cansou muita gente. Mortal Kombat 2 prefere seguir pelo caminho oposto e quer exagerar ainda mais.
Só que nem tudo funciona perfeitamente.
Os efeitos visuais, em alguns momentos, são duvidosos. Algumas maquiagens (alô, Quan Chi!) também passam uma sensação de estarmos vendo um festival de cosplays. Mas, curiosamente, isso não destrói a experiência. Porque existe quase uma “licença poética” dentro do universo de Mortal Kombat. A artificialidade, o excesso e até o desconforto visual acabam combinando com aquele mundo.

As atuações também seguem essa lógica. São canastronas? Demais. Só que basta lembrar dos jogos antigos e dos filmes clássicos para perceber que os personagens sempre foram assim. Em Mortal Kombat, ninguém demonstra emoção. Todo mundo parece sério demais, intenso demais, teatral demais.
O maior pecado do filme, na verdade, está na trilha sonora.
Deixar Techno Syndrome restrita aos créditos finais foi um erro enorme. A música é parte da identidade da franquia. Ela pulsa junto com Mortal Kombat desde os anos 90. E a ausência dela durante momentos importantes faz falta. Esperei o filme inteiro, ou até mesmo para a luta final e nada.
A falta foi tanta que as pessoas permaneceram até o último segundo dos créditos só para ouvir a música inteira. Isso diz muito. É a mesma coisa que deixar o instrumental tema de Star Wars de fora do filme, entende a importância?
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