Alta do petróleo, fertilizantes mais caros e risco climático colocam alimentos no centro da pressão inflacionária. (Foto: Werther Santana)Os alimentos voltaram ao centro das preocupações dos economistas e já aparecem como um dos principais focos de pressão sobre a inflação no Brasil. Depois de um comportamento mais favorável em 2025, a expectativa agora é de dois anos seguidos de alta mais forte nos preços da comida, cenário que pode complicar ainda mais o trabalho do Banco Central para levar o IPCA à meta de 3%.
A preocupação não está ligada apenas aos efeitos indiretos da guerra, especialmente sobre combustíveis e fertilizantes. O risco climático também entrou com força nessa conta. Segundo economistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast, a combinação entre encarecimento de insumos e a possibilidade de um El Niño forte em 2026 cria o que já é tratado no mercado como uma “tempestade perfeita” para a inflação dos alimentos.
O peso desse grupo no índice oficial ajuda a explicar a atenção redobrada. Alimentação e bebidas respondem por 21,3% do IPCA e por 24,3% do INPC, indicador mais sensível ao orçamento das famílias de menor renda. Isso significa que qualquer avanço mais intenso nesses preços tende a ser sentido com mais força no bolso da população e também na inflação geral.
Entre os fatores que mais preocupam está a alta dos fertilizantes, agravada pelo conflito envolvendo Estados Unidos e Irã, que afetou o escoamento de parte relevante da produção do insumo. No agronegócio, o impacto já é percebido. Segundo o estrategista-chefe da RB Investimentos, Gustavo Cruz, produtores tentam travar preços em um patamar mais alto, o que reduz margem de lucro e abre espaço para repasse ao consumidor final.
Os produtos mais sensíveis ao choque do petróleo e com repasse mais rápido são carnes, peixes industrializados, aves e ovos, leite e derivados, panificados e óleos e gorduras. De acordo com estudo da Warren citado na reportagem, esses itens conseguem absorver a pressão de custos em até um mês. Outros grupos, como cereais, leguminosas e alimentação fora de casa, tendem a sentir os efeitos entre dois e quatro meses. Já farinha, massas, bebidas e infusões costumam ter repasse mais lento.
O temor maior, porém, vai além do petróleo. A possibilidade de um El Niño forte em 2026, coincidindo com o período seco no Sudeste e com fases importantes da produção agrícola, pode ampliar a pressão sobre a inflação. Em cenário extremo da Warren, esse efeito pode adicionar até 2 pontos porcentuais ao IPCA acumulado do biênio.
A análise é reforçada por outros economistas. Sergio Vale, da MB Associados, avalia que o impacto mais preocupante pode aparecer em 2027, especialmente se houver efeito combinado entre fertilizantes caros, clima adverso e câmbio depreciado. Já Luis Otávio de Souza Leal, da G5 Partners, lembra que anos com formação de El Niño registraram inflação média anual de alimentos de 11,6%, bem acima dos 6,1% observados em anos sem o fenômeno.
O ponto central é que a pressão sobre os alimentos deixa de ser um risco isolado e passa a reunir fatores externos, climáticos e logísticos ao mesmo tempo. Para o Banco Central, isso significa enfrentar uma inflação mais espalhada e resistente. Para o consumidor, significa uma perspectiva de comida mais cara no supermercado e maior aperto no orçamento nos próximos meses.
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