Novo Desenrola promete aliviar dívidas de milhões de brasileiros, mas economistas veem limite no efeito da medida. (Foto: Reprodução)O Novo Desenrola Brasil foi recebido por economistas como uma medida capaz de dar alívio imediato a famílias sufocadas por dívidas, mas cercada de dúvidas sobre sua eficácia no longo prazo. Embora o programa prometa descontos de até 90%, juros reduzidos e possibilidade de uso do FGTS para abater débitos, especialistas ouvidos pelo Estadão avaliam que o fôlego da iniciativa pode ser curto e alertam para o risco de uma nova rodada de endividamento.
Anunciado nesta segunda-feira, (4), o programa mira pessoas com renda de até cinco salários mínimos, hoje o equivalente a R$ 8.105, e terá duração de 90 dias. A expectativa do governo federal é renegociar até R$ 58 bilhões em dívidas. Entram no pacote débitos feitos até 31 de janeiro de 2026, com atraso entre 90 dias e dois anos, incluindo cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal.
No curto prazo, a leitura predominante é positiva. O economista Paulo Feldmann, da FIA Business School, afirma que o programa atinge um problema central da economia brasileira: a família endividada deixa de consumir, e isso afeta emprego e atividade econômica. Já Miguel Huertas, da Universidade São Judas, avalia que a medida abre uma janela concreta de reorganização financeira ao combinar descontos relevantes com juros de, no máximo, 1,99% ao mês, prazo de até 48 meses e primeira parcela em até 30 dias.
Mas o principal gancho do debate está fora desse alívio inicial. Para parte dos economistas, o programa funciona mais como remédio emergencial do que como solução estrutural. Feldmann resume essa preocupação ao dizer que o problema não tende a desaparecer enquanto o crédito no Brasil continuar entre os mais caros do mundo. Na mesma linha, Katherine Hennings, pesquisadora associada do FGV Ibre, afirma que a medida pode passar o recado de que o governo voltará periodicamente para facilitar perdão ou renegociação, criando incentivo ao não pagamento.
Esse é o chamado risco moral, apontado também por Rafaela Vitória, economista-chefe do banco Inter. A preocupação é que, depois da renegociação, parte das famílias volte a se endividar, já contando com a possibilidade de um novo socorro estatal no futuro. Em vez de romper o ciclo, o programa poderia apenas empurrar o problema adiante.
Outro ponto de atenção é o uso de recursos públicos e do FGTS para dar sustentação à medida. O desenho do programa combina garantias do FGTS, do Fundo Garantidor de Operações, de valores esquecidos em instituições financeiras e de um aporte do Tesouro de até R$ 5 bilhões. Para alguns especialistas, isso gera risco fiscal e transfere para a sociedade parte do custo da renegociação.
A crítica também passa pelo uso do FGTS. Renato Eliseu Costa, da ESALQ/USP, destaca que a grande novidade do programa é incluir novos públicos, como famílias, estudantes, produtores rurais e micro e pequenas empresas. Ainda assim, há preocupação com a liberação de até 20% do saldo do fundo, ou até R$ 1 mil, para quitação de dívidas. Segundo os economistas citados na reportagem, isso reduz a reserva financeira do trabalhador para momentos de demissão ou financiamento da casa própria.
No fundo, o que une as avaliações é a percepção de que o programa pode aliviar a crise agora, mas não ataca a base do problema. Sem educação financeira, sem mudança no custo do crédito e sem reorganização mais profunda da renda das famílias, o risco é de que o Desenrola 2 funcione como um respiro temporário em um quadro de endividamento que continua estrutural.
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