A morte de Maykelly Araújo Points, de 30 anos, durante uma perseguição policial na fronteira entre Brasil e Paraguai trouxe novamente à tona denúncias de suposta violência e excesso em abordagens realizadas por equipes da Polícia Militar Rodoviária Estadual (BPMRv) em Mato Grosso do Sul.
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Nos últimos meses, pessoas abordadas em operações nas rodovias estaduais procuraram a polícia e a Corregedoria da PMMS para relatar agressões físicas, ameaças e supostos abusos cometidos durante fiscalizações. Parte das denúncias envolve policiais do Tático Ostensivo Rodoviário (TOR), unidade especializada que atua no combate ao tráfico de drogas, armas, contrabando e descaminho em regiões de fronteira.
O tema ganhou repercussão após a morte de Maykelly. Ela estava em um veículo conduzido pelo namorado durante uma perseguição iniciada em Ponta Porã. Durante a fuga, o motorista atravessou a fronteira e invadiu uma propriedade em Pedro Juan Caballero, no Paraguai. O carro perdeu o controle e caiu dentro de uma piscina.
No veículo, os policiais encontraram cerca de cinco quilos de maconha e um revólver com numeração raspada. O motorista foi preso em flagrante. Imagens registradas após a ocorrência mostraram diversas marcas de disparos na carroceria do automóvel. Maykelly ocupava o banco do passageiro, foi socorrida e encaminhada ao Hospital Regional de Ponta Porã, mas não resistiu aos ferimentos.
Embora a ocorrência envolvendo Maykelly tenha sido conduzida por equipes do BPMRv e não pelo TOR, o caso reacendeu discussões sobre a atuação policial nas estradas da fronteira sul-mato-grossense.
Denúncias chegaram à Corregedoria
Um dos episódios mais conhecidos ocorreu em setembro de 2025, quando uma mulher de 34 anos registrou boletim de ocorrência na Corregedoria da PMMS após uma abordagem na MS-164, próximo ao trevo de Antônio João.
Segundo o relato, ela e a irmã transportavam celulares adquiridos no Paraguai quando foram abordadas por policiais. A mulher afirmou ter sido agredida com chutes, puxões de cabelo e ameaças durante a fiscalização.
De acordo com a denúncia, um policial teria gritado frases intimidatórias enquanto exigia informações sobre a carga transportada. O caso foi encaminhado para apuração interna.
Outra denúncia veio à tona em abril deste ano. Um servidor público de Brasília afirmou ter sido vítima de abuso durante uma abordagem na região de Ponta Porã.
Segundo o relato apresentado à Corregedoria, ele foi retirado do veículo, obrigado a se ajoelhar às margens da rodovia e teve uma arma apontada para a cabeça. O homem também alegou que disparos foram efetuados próximos à sua mão durante a ação policial.
O caso passou a ser investigado pelos órgãos competentes.
Fronteira é alvo constante de operações
Mato Grosso do Sul possui uma das maiores extensões de fronteira seca do país, sendo considerado rota estratégica para o tráfico de drogas, armas, contrabando e descaminho.
Além das rodovias estaduais, policiais atuam em estradas vicinais conhecidas como “cabriteiras”, utilizadas frequentemente por organizações criminosas para evitar barreiras de fiscalização.
Por conta desse cenário, as equipes do BPMRv e do TOR realizam operações permanentes para interceptar cargas ilegais e combater a atuação de grupos criminosos na região.
O que diz a Polícia Militar
Em nota enviada à reportagem, a Polícia Militar de Mato Grosso do Sul informou que as equipes do Tático Ostensivo Rodoviário atuam em conformidade com os Procedimentos Operacionais Padrão (POP) da corporação.
A instituição destacou que os policiais passam por critérios técnicos de seleção e recebem treinamentos constantes em abordagem policial, uso diferenciado da força, armamento, gerenciamento de crises e policiamento de fronteira.
Segundo a PMMS, as equipes especializadas são responsáveis por apreensões significativas de drogas, armas e mercadorias ilegais, o que frequentemente gera reações de pessoas ligadas a atividades criminosas.
A corporação afirmou ainda que parte das denúncias pode ter o objetivo de enfraquecer a atuação policial nas estradas.
“Em muitos casos, tais denúncias possuem o claro objetivo de afastar policiais militares da atividade operacional e enfraquecer a presença policial nas rodovias, reduzindo a efetividade das ações de fiscalização e repressão criminal desenvolvidas pelo BPMRv.”
A PMMS ressaltou que todas as denúncias recebidas são formalmente registradas e investigadas.
“Todavia, toda denúncia recebida pela instituição é devidamente registrada e apurada individualmente, com observância ao devido processo legal, ampla defesa e contraditório, não havendo qualquer tolerância institucional com eventuais desvios de conduta.”
Enquanto as apurações seguem em andamento, os episódios ampliam o debate sobre os limites da atuação policial em regiões de fronteira e o desafio de conciliar o combate ao crime organizado com o respeito aos protocolos legais e aos direitos individuais durante as abordagens.
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