Operação em Goiás entrou no radar global após acordo bilionário entre a Serra Verde e a USA Rare Earth.A compra da mineradora brasileira Serra Verde pela americana USA Rare Earth, anunciada nesta segunda-feira, 20 de abril de 2026, coloca Goiás no centro de um mercado cada vez mais estratégico para a indústria global. Avaliada em cerca de US$ 2,8 bilhões, a operação envolve 100% da companhia dona da mina e da planta de processamento Pela Ema, em Minaçu, e amplia o movimento dos Estados Unidos para garantir acesso a terras raras fora da Ásia e reduzir a dependência da China nesse segmento.
Pelo desenho anunciado, a transação será paga com US$ 300 milhões em dinheiro e 126,849 milhões de novas ações da USA Rare Earth. O fechamento está previsto para o terceiro trimestre de 2026, ainda condicionado a aprovações regulatórias e às demais etapas usuais desse tipo de negócio.
Mais do que uma troca de controle societário, o acordo reposiciona um ativo brasileiro em uma disputa geoeconômica mais ampla. A Serra Verde opera um projeto tratado pelo mercado como estratégico por reunir capacidade de produção em escala de quatro elementos magnéticos de terras raras fora da Ásia: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. Esses minerais são usados na fabricação de ímãs permanentes, componentes essenciais para carros elétricos, turbinas eólicas, semicondutores e equipamentos de defesa.
A relevância do ativo em Goiás ganha peso justamente porque a cadeia global de terras raras continua concentrada na China. Ao anunciar a aquisição, a USA Rare Earth deixou claro que pretende fortalecer uma estrutura integrada de fornecimento fora da Ásia, unindo mineração, processamento e produção de ímãs. A empresa já vinha ampliando essa estratégia com outros movimentos recentes, como a compra de uma processadora de minério em 2025 e a entrada em operação de uma fábrica de ímãs em Oklahoma.
Nesse contexto, a mina Pela Ema passa a ser vista como uma peça importante para o plano americano de construir uma cadeia mais independente em minerais críticos. Segundo a USA Rare Earth, a Serra Verde poderá responder por mais de 50% da oferta de terras raras pesadas produzidas fora da China até 2027. É esse potencial que ajuda a explicar o porte do negócio e o interesse institucional dos Estados Unidos na operação.
O anúncio também detalha um contrato de 15 anos para a venda de 100% da produção inicial de minerais como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, com pisos de preço definidos. Na prática, esse modelo reduz parte da exposição às oscilações de mercado e dá previsibilidade comercial a um setor marcado por forte influência geopolítica e por variações internacionais de oferta e demanda.
A operação foi anunciada poucos meses depois de a USA Rare Earth firmar, em janeiro, uma carta de intenções não vinculante com o Departamento de Comércio dos Estados Unidos para acesso potencial a até US$ 1,6 bilhão em apoio financeiro. Desse total, até US$ 277 milhões seriam em recursos federais diretos e até US$ 1,3 bilhão em um empréstimo sênior garantido. O documento não representa liberação automática dos valores, mas mostra que a companhia passou a ocupar posição estratégica na política industrial americana voltada a semicondutores, materiais críticos e manufatura avançada.
No caso da Serra Verde, o interesse americano já vinha se desenhando antes da venda agora anunciada. Em fevereiro, a empresa brasileira informou um pacote de financiamento de US$ 565 milhões da U.S. International Development Finance Corporation para apoiar a expansão do projeto em Goiás. A própria companhia apresentou esse aporte como um reconhecimento do papel da operação brasileira no fornecimento de terras raras pesadas fora da Ásia.
A Serra Verde iniciou a produção comercial em 2024. Segundo informações já divulgadas pela empresa, o projeto recebeu mais de US$ 1,1 bilhão em investimentos, e a expectativa é atingir capacidade plena até 2027, com possibilidade de expansão nos anos seguintes. Esse cronograma ajuda a entender por que o ativo passou a ser tratado como um dos mais relevantes do setor fora do eixo asiático.
Para o Brasil, o negócio confirma o peso crescente dos minerais críticos no cenário internacional. Ao mesmo tempo, a operação reacende uma discussão recorrente: quanto valor o país consegue reter internamente quando recursos estratégicos entram em cadeias globais comandadas por grupos estrangeiros. A mina está em território brasileiro e concentra uma etapa essencial da produção, mas as fases industriais mais avançadas, especialmente as ligadas à fabricação de ímãs e à agregação tecnológica, tendem a permanecer fora do país. Essa leitura é uma inferência a partir do plano divulgado pela USA Rare Earth de integrar mineração, processamento e produção de ímãs em sua cadeia internacional.
Do ponto de vista econômico, o acordo também chama atenção pelo porte e pela forma de pagamento. A maior parte da operação será liquidada com ações da compradora, o que indica uma aposta no potencial futuro da cadeia de terras raras e não apenas no desempenho atual da mina em Goiás. Depois do anúncio, os papéis da USA Rare Earth registraram valorização no mercado americano, refletindo a leitura de que a aquisição fortalece o posicionamento da empresa em um setor considerado sensível para a segurança industrial e tecnológica dos Estados Unidos.
No mercado internacional, terras raras deixaram há tempos de ser um tema restrito à mineração. Hoje, esses elementos entram no centro das políticas industriais porque são indispensáveis para a transição energética, para a indústria eletrônica e para cadeias ligadas à defesa. É por isso que a disputa por ativos como o da Serra Verde ganhou dimensão estratégica. O que está em jogo não é apenas a extração mineral, mas a capacidade de países e empresas controlarem fornecimento, preço e tecnologia em setores considerados decisivos para os próximos anos.
Em Goiás, a operação coloca Minaçu em evidência dentro de uma agenda global que mistura mineração, indústria e geopolítica. A cidade abriga um projeto que se tornou referência por estar fora do principal polo mundial de produção e, ao mesmo tempo, por reunir minerais vistos como críticos para cadeias produtivas cada vez mais disputadas. A venda da Serra Verde, nesse sentido, não é apenas um negócio bilionário. Ela também funciona como um sinal de que o subsolo brasileiro segue atraindo interesse externo quando o assunto é segurança de suprimento e reorganização de cadeias industriais.
Para a USA Rare Earth, a compra representa um passo para consolidar uma operação integrada fora da Ásia. Para o Brasil, o acordo reforça a importância das reservas nacionais de minerais críticos no tabuleiro internacional. E, para Goiás, o anúncio projeta a Serra Verde como um ativo de alcance global em um mercado que, cada vez mais, deixa de ser apenas mineral para se tornar também industrial, tecnológico e estratégico.
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