Principais pontos de interesse para o contrabando de migrantes no Brasil em 2025, com destaque para Corumbá – Foto: Reprodução/Abin
Corumbá e Campo Grande são hoje os principais pontos de operação do contrabando de migrantes em Mato Grosso do Sul e integram uma das rotas mais tradicionais do Brasil.
O estado, com sua extensa fronteira com a Bolívia e o Paraguai, posição central no território nacional e divisas com cinco estados, consolidou-se como corredor estratégico do fluxo irregular de pessoas.
É o que mostra o relatório “Contrabando de Migrantes no Brasil: uma análise de inteligência”, produzido pela Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) em parceria com a Organização Internacional para as Migrações (OIM) e divulgado em 2026.
O documento analisa o fenômeno em âmbito nacional, com capítulos dedicados a estados como Acre, Roraima, Amazonas, Rondônia, Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo, e dedica atenção especial às dinâmicas de Mato Grosso do Sul.
O funcionamento da rota em MS
Corumbá concentra a maior ocorrência de entradas e saídas irregulares no estado. A rota Corumbá-São Paulo, uma das mais antigas do país, é usada principalmente por bolivianos atraídos por vagas na indústria têxtil paulista, muitas vezes em fábricas clandestinas.
Os aliciadores atuam em Puerto Suárez e Puerto Quijarro, na Bolívia, por meio de redes sociais, rádios online e rodoviárias. A rede envolve historicamente brasileiros e bolivianos, mas casos recentes indicam participação de outras nacionalidades.
Os migrantes cruzam a fronteira pelo Posto Esdras da Receita Federal, ou por cabriteiras, como a Trilha do Gaúcho. O trajeto de cerca de 25 km até Corumbá é feito a pé, em vans (vagonetas) ou táxis, com cobrança média de R$ 50 por pessoa.
Em Corumbá, eles ficam em casas de apoio, galpões e garagens que servem como pontos de embarque para ônibus clandestinos com destino a São Paulo.
Os ônibus irregulares saem principalmente à noite, custam cerca de R$ 200 (contra R$ 350 das linhas regulares) e utilizam veículos antigos com pouca segurança. Estima-se que circulem entre oito e dez por dia.
Desembarques também ocorrem na MS-228, a Estrada Parque, com apoio de taxistas. O esquema usa olheiros, batedores e comunicação constante para evitar fiscalizações — padrão comum a outros crimes no estado.
Casos de abuso e sobreposição de crimes
Em janeiro de 2025, 70 bolivianos, incluindo mulheres e crianças, foram resgatados em cárcere privado em Campo Grande. Durante uma parada, foram obrigados a pagar R$ 150 por pessoa para recuperar pertences.
O relatório registra indícios frequentes de tráfico de pessoas: retenção de documentos, desconhecimento do destino final e promessas falsas de emprego.
No destino, em São Paulo, muitos acabam em condições análogas à escravidão na indústria de confecção. A diferenciação entre contrabando de migrantes, tráfico de pessoas e trabalho escravo ainda é complexa nos processos judiciais.
Contexto nacional
O documento da ABIN/OIM mostra que o contrabando de migrantes não é exclusividade de Mato Grosso do Sul, mas o estado ganha relevância pela posição geográfica e pela consolidação de rotas consolidadas.
Em âmbito nacional, o relatório destaca o crescimento de fluxos irregulares em diversas fronteiras e o retorno de brasileiros dos Estados Unidos, muitos dos quais também usaram redes de contrabandistas.
A análise reforça que os migrantes não são criminalizados, mas alerta para os riscos reais de exploração, violência e condições degradantes quando recorrem a esses serviços.
O objetivo é subsidiar políticas públicas de migração regular, ordenada e segura em todo o país.
O post Corumbá e Campo Grande concentram principal rota de contrabando de bolivianos para São Paulo apareceu primeiro em RCN67.
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