Obsessão acompanha a relação entre Bear e Nikki após um desejo transformar afeto em obsessão. (Foto: Divulgação)Apontado como um dos filmes de terror mais comentados do ano até aqui, Obsessão chega aos cinemas brasileiros cercado por expectativa, mas entrega menos do que promete. Dirigido por Curry Barker, o longa parte de uma ideia com potencial, ao transformar desejo romântico em maldição sobrenatural, porém acaba reduzido, em grande parte, a um estudo sobre crueldade, desconforto e imaturidade afetiva.
A história acompanha Bear, vivido por Michael Johnston, um jovem consumido pela paixão silenciosa que sente pela melhor amiga, Nikki, interpretada por Inde Navarrette. Incapaz de revelar o que sente e travado pela própria timidez, ele recorre a uma loja esotérica em busca de ajuda. Lá, encontra um objeto chamado “One Wish Willow”, um tipo de amuleto que promete realizar um desejo depois de ser partido ao meio. O pedido feito por Bear é direto, quer que Nikki o ame mais do que qualquer outra pessoa.
O desejo funciona, mas o efeito vem carregado de um preço previsível e perturbador. Nikki passa a demonstrar devoção extrema e desejo sexual intenso, numa relação que logo deixa de parecer idealizada para assumir contornos sufocantes. O que parecia fantasia romântica vira pesadelo. Aos poucos, a personagem mergulha em um comportamento controlador, obsessivo e violento, enquanto Bear percebe que criou a própria armadilha.
A premissa do filme toca num ponto reconhecível, o desconforto masculino diante da rejeição, da intimidade e da incapacidade de lidar com frustrações afetivas. O problema é que Obsessão não aprofunda esse debate de forma madura. Em vez disso, insiste numa dinâmica em que a experiência feminina aparece atravessada pela monstruosidade e pela punição, como se o centro da tragédia ainda estivesse menos na violência imposta a Nikki e mais no medo masculino de ser consumido pela mulher desejada.
O roteiro de Barker até ensaia dar alguma espessura à personagem de Nikki. Em certos momentos, o filme sugere que por trás da figura transformada pela maldição existe uma mulher real, em sofrimento real, o que poderia ampliar a dimensão dramática da história. Mas esses lampejos são curtos e não mudam o eixo principal do longa, que prefere insistir na degradação da relação e no desconforto físico e emocional como motor narrativo.
Nesse sentido, Obsessão se sustenta mais pela atmosfera do que pela construção de ideias. Barker demonstra domínio do gênero e revela senso de ritmo ao saber quando segurar a tensão e quando intensificá-la. Há controle visual, pulsação e uma condução segura das cenas de terror. Isso ajuda o filme a manter interesse, mesmo quando a base dramática começa a se esgotar.
A sensação, no entanto, é de que a provocação proposta pelo diretor fica aquém do que poderia entregar. A história parte de um impulso contemporâneo, o medo das relações, a ansiedade diante do afeto e o desejo de controle sobre o outro, mas não consegue transformar esse material em reflexão mais consistente. O resultado é um longa que se aproxima de um comentário sobre relações tóxicas e obsessão, mas permanece preso a uma lógica mais simplista e, por vezes, pouco desenvolvida.
A trajetória de Barker ajuda a explicar parte desse estilo. Antes de migrar para o longa-metragem, ele construiu presença no YouTube ao lado de Cooper Tomlinson, com a dupla That’s a Bad Idea, e chamou atenção com Milk & Serial, filme found-footage de micro-orçamento que viralizou. Em Obsessão, há sinais claros de que ele tem recursos para avançar no terror, sobretudo pela forma como organiza tensão e desconforto, mas o conteúdo ainda parece atravessado por uma política sexual imatura.
No fim, Obsessão funciona menos como grande experiência de horror e mais como uma fábula amarga sobre insegurança, desejo e controle. Tem uma premissa forte, alguns achados de direção e uma atuação marcante de Inde Navarrette, mas não vai muito além disso. Para um filme cercado de tanto barulho, sobra impacto e falta profundidade.
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