Crise no petróleo leva países asiáticos a reabrirem canais com Rússia e Irã em meio à tensão no Estreito de Ormuz. (Foto: Marlon Tano)A guerra no Oriente Médio abriu uma frente diplomática inesperada na Ásia e aproximou de Rússia e Irã países que, até pouco tempo atrás, evitavam esse tipo de movimento para não contrariar os Estados Unidos. Com o impacto do conflito sobre o petróleo, governos asiáticos passaram a tratar como prioridade contatos com Moscou e Teerã, em uma tentativa de proteger estoques, garantir rotas e reduzir o risco de desabastecimento. O reposicionamento ocorre em meio à instabilidade no Estreito de Ormuz, ponto central do comércio global de energia, e à reabertura ainda cercada de cautela anunciada nesta sexta-feira, 17.
Antes da guerra, aliados e parceiros estratégicos de Washington na Ásia evitavam comprar petróleo russo em respeito às sanções ocidentais, enquanto mantinham relação limitada com o Irã. Esse quadro mudou com a pressão sobre o abastecimento e com o aumento da incerteza em torno da duração do conflito. O texto original aponta que muitos desses países ainda sentem os efeitos do choque petrolífero e passaram a buscar reuniões e telefonemas com autoridades russas e iranianas como parte de uma resposta emergencial.
A Coreia do Sul é um dos exemplos desse movimento. Na semana passada, Seul decidiu enviar um enviado especial ao Irã para negociar a saída de embarcações sul-coreanas retidas na região do Golfo Pérsico, num gesto que mostra como a crise energética passou a exigir diálogo direto com Teerã. Reportagens publicadas nos últimos dias indicam que dezenas de navios sul-coreanos ficaram presos na área e que o governo busca uma solução rápida para restabelecer o fluxo marítimo.
A Indonésia também entrou nesse jogo. O presidente Prabowo Subianto desembarcou em Moscou nesta semana em meio a conversas sobre a compra de petróleo russo, enquanto Jacarta, ao mesmo tempo, anunciou uma nova parceria de defesa com os Estados Unidos. O duplo movimento ajuda a ilustrar a lógica que passou a orientar parte dos países asiáticos: manter laços com Washington, mas ampliar alternativas energéticas diante do aperto no mercado internacional.
O problema de fundo é a dependência asiática das rotas que passam por Ormuz. Cerca de 80% do petróleo que cruzava o estreito antes da guerra seguia para a Ásia. Com a interrupção parcial do fluxo e a incerteza sobre a segurança da navegação, países com reservas pequenas, como as Filipinas, passaram a buscar formas urgentes de reforçar estoques. Nesta sexta, Irã e Estados Unidos sinalizaram reabertura da passagem, mas grandes agentes do mercado seguem tratando o cenário com prudência, porque a segurança marítima ainda é vista como frágil.
Nesse ambiente, Rússia e Irã voltaram a ocupar espaço como fornecedores viáveis, ainda que cercados por restrições políticas e comerciais. As Filipinas receberam no mês passado seu primeiro carregamento de petróleo bruto russo em cinco anos, enquanto a Índia voltou nesta semana a receber petróleo iraniano após sete anos de interrupção. Essas operações não significam necessariamente rompimento com Washington, mas ajudam os principais rivais dos Estados Unidos em um momento de tensão global.
Há, porém, limites claros para esse rearranjo. O governo Trump não renovou a isenção de sanções à Rússia, e a licença temporária que permite ao Irã vender petróleo pode expirar em 19 de abril, segundo o texto original. Além disso, a Marinha dos Estados Unidos mantém medidas de bloqueio relacionadas ao conflito, o que ajuda a explicar por que o mercado ainda trabalha com forte incerteza, mesmo após os sinais recentes de abertura em Ormuz.
A avaliação de analistas citados na reportagem é que a política externa americana sob Donald Trump acaba empurrando parte desses países para outras alternativas. Essa leitura aparece em um momento em que governos asiáticos tentam equilibrar interesse nacional, segurança energética e alinhamento estratégico, sem transformar o movimento em uma ruptura formal com os Estados Unidos. O que se vê, na prática, é uma diplomacia mais pragmática, guiada menos por afinidade política e mais pela urgência do petróleo.
O caso do Japão ajuda a entender esse cálculo. Tóquio mantém aliança histórica com Washington, mas também preserva canais com o Irã e voltou a acionar esse relacionamento em meio à crise. Já a Índia, mesmo sem ser aliada formal dos EUA, ganhou peso na estratégia americana para a região, porém retomou compras em um contexto de pressão energética e encarecimento do barril. Nas Filipinas, o cenário chegou ao ponto de mobilizar pedido por flexibilização das restrições para aquisição de petróleo russo. Em comum, esses países tentam evitar que a guerra no Oriente Médio se transforme em uma crise prolongada de abastecimento dentro de casa.
No fim, o conflito alterou não apenas o preço do petróleo e a segurança no Golfo, mas também a geografia política das negociações na Ásia. Países que até recentemente mantinham distância calculada de Moscou e Teerã agora voltam a bater à porta desses governos, pressionados por um mercado instável e por uma guerra que expôs o tamanho da dependência energética da região.
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