Existe uma expectativa muito perigosa quando um filme de terror começa a ser vendido como “o melhor do ano”. Principalmente em um período em que o gênero tenta o tempo inteiro encontrar novas formas de assustar um público que já viu praticamente de tudo.
E talvez tenha sido justamente isso que atrapalhou minha experiência com “Obsessão” (Obsession) (2026), do novato Curry Barker. Só para você ter uma ideia, o filme está com 94% de aprovação no Rotten Tomatoes, site que agrega críticas de cinema e televisão do mundo.

Eu evito assistir críticas antes de ver um filme. Evito vídeos, análises e até comentários mais aprofundados porque acredito que isso influencia diretamente a forma como a gente acompanha uma obra. Mas, alguns títulos acabam aparecendo nos sites e como eu trabalho com notícias, foi assim que fiquei esperando algo próximo de uma experiência surreal, dentro do gênero que ainda enfrenta MUITO preconceito em Hollywood.
Não encontrei isso. Mas também não encontrei um filme ruim.
“Obsessão” funciona muito bem em alguns aspectos e tropeça bastante em outros. E talvez o maior mérito dele seja justamente conseguir prender o espectador mesmo quando a história começa a abrir muitos “buracos” que são difíceis de ignorar.

A premissa é simples: O jovem Bear, interpretado por Michael Johnston, é apaixonado pela amiga, Nikkie (Inde Navarrette), e com muita vergonha de revelar os próprios sentimentos, e que recorre ao “Salgueiro dos Desejos”, um objeto capaz de realizar os desejos. O problema é que esse desejo transforma completamente a relação entre os dois e cria uma situação desconfortável, sufocante e bastante perturbadora.

E aqui existe algo que conecta rapidamente com o público.
Quem nunca teve um crush? Quem nunca desejou ser correspondido por alguém? O filme entende isso e usa essa identificação emocional como ponto de partida. Em alguns momentos a construção soa artificial. A própria forma como ele encontra para fazê-la se apaixonar por ele chega a parecer meio bobinha. Só que ainda funciona o suficiente para manter o interesse.

O problema começa quando o filme tenta expandir esse universo e simplesmente não entrega respostas. O tal salgueiro, responsável por tudo aquilo existe… Por que? Porque sim. Por que ele é “amaldiçoado”? Porque sim, novamente. Não há uma origem clara, não há uma explicação minimamente elaborada e também não existe interesse real em aprofundar aquilo.
E isso incomoda demais.
Porque o filme cria pistas de que vai explorar melhor esse elemento sobrenatural, mas abandona tudo no meio do caminho. Mas muita hora nessa calma… Não estou falando aqui sobre “precisar ser realista”. Terror sobrenatural não precisa seguir uma lógica do mundo real. Mas ele precisa criar regras próprias que façam o espectador comprar aquela ideia. E eu não comprei essa ideia.
Mas ainda assim, existem vários acertos. É um filme de terror que acaba sendo divertido de ver em vários momentos.

Os diálogos são bem construídos, personagens carismáticos que conseguem gerar envolvimento e existe uma sutileza interessante na direção. O filme utiliza muito bem os jump scares, quase sempre na medida certa, sem transformar tudo em sustos artificiais.
Visualmente, também há boas escolhas.
A forma como o rosto da personagem Nikki muitas vezes permanece parcialmente escondido pela escuridão funciona muito bem como representação da transformação dela ao longo da trama. É como se aquela pessoa fosse desaparecendo aos poucos, dando espaço para uma nova versão incorporada por algo sombrio.

E isso conversa diretamente com outro ponto muito positivo: a caracterização dos personagens.
Bear e Nikki terminam o filme completamente diferentes de como começaram. Não apenas emocionalmente, mas fisicamente também. Existe um desgaste visível, quase sufocante, principalmente conforme a trama vai entrando naquele clima mais isolado e decadente da reta final. E talvez seja aí que o filme fique mais interessante.
Porque a história começa a brincar com algo muito mais psicológico do que sobrenatural: aquela dubialidade moral do protagonista.
Bear sabe o que causou. Em diversos momentos, fica claro que existe uma possibilidade de interromper aquilo. Mas, ao mesmo tempo, também existe nele um desejo egoísta de manter Nikki ao seu lado, mesmo daquela forma. E isso cria um conflito muito interessante dentro do espectador.
Você sente pena dele em alguns momentos. Em outros, sente raiva. E o final mantém exatamente essa dúvida: ele tentou salvá-la… ou tentou salvar a si mesmo da culpa? Essa ambiguidade funciona muito bem.
Por outro lado, o filme sofre com repetição. Algumas situações se estendem mais do que deveriam e certas cenas passam a sensação de que a narrativa está andando em círculos. Isso cansa um pouco e impede que o longa alcance um impacto maior.
Mesmo assim, é impossível ignorar o potencial envolvido ali. Inclusive, um elenco bem novo em Hollywood… Caras novas que deram um frescor em cena.

Principalmente quando lembramos que este é um dos trabalhos mais ambiciosos de Curry Barker até aqui, um diretor jovem, de 26 anos, vindo de curtas-metragens e que claramente demonstra personalidade visual e boas ideias. Talvez falte lapidar melhor algumas decisões de roteiro, mas é inegável o talento. Inclusive, vários momentos em que o enquadramento se aproximou de uma “quebra da quarta parede”, e que vale destaque pela direção de Barker.
No fim das contas, “Obsessão” não é o melhor terror do ano, pelo menos para mim. Mas também está longe de ser descartável. É um filme que prende, gera desconforto, cria discussões interessantes e deixa perguntas ecoando na cabeça do espectador.
Mesmo quando nem todas elas têm resposta.
Quantos cortes “Obsessão” merece?

| Informação | Detalhes |
|---|---|
| Título | Obsessão (Obsession) |
| Ano | 2026 |
| Direção | Curry Barker |
| Gênero | Terror psicológico / Suspense |
| Duração | 1h 48min |
| Elenco principal | Michael Johnston, Inde Navarrette, Cooper Tomlinson |
| Sinopse | Um jovem usa um objeto sobrenatural para conquistar sua amiga de infância, mas a obsessão transforma o desejo em pesadelo. |
Onde assistir?
Cinemark, UCI Cinemas, Cinépolis e outras redes exibem “Obsessão” nos cinemas brasileiros. A programação pode variar conforme a cidade e a disponibilidade das sessões.
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