Filme A Bruxa de Blair foi lançado em 1999, mas continua fazendo sucesso e conquistando novos públicos – (Foto: Reprodução)Tem filmes que envelhecem. Outros ficam datados. E existem aqueles raros casos em que o tempo passa, a tecnologia evolui, o cinema muda completamente… mas a sensação continua exatamente a mesma.
Foi isso que eu senti revisitando A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project) (1999) por esses dias.
E talvez o mais impressionante seja justamente perceber que, mesmo depois de tantos anos, minhas reações continuam iguais às da primeira vez em que assisti ao filme. O desconforto continua ali. A tensão continua ali. E aquele medo estranho também continua intacto.
Muito já se falou sobre a campanha de marketing visionária do filme dirigido por Daniel Myrick e Eduardo Sánchez, principalmente sobre o famoso site que dizia que os atores estavam desaparecidos após os acontecimentos na floresta. Hoje isso pode parecer comum, mas em 1999, meu amigo… Isso era revolucionário. O filme vendeu dúvidas. Vendeu a sensação de que aquilo tinha acontecido de verdade. Eu mesmo comprei a ideia de que eles eram jovens estudantes e de que as fitas originais haviam sido entregues aos cinemas até os meus 20 anos.
Por meio do site archive.org é possível acessar a página inicial do filme na época do lançamento, em abril de 1999 – (Foto: Reprodução)
Mas revisitando o filme hoje, o que mais me impressiona nem é a campanha. É a honestidade.
Existe algo muito genuíno em A Bruxa de Blair. A forma como ele começa, aquele fundo escuro, a apresentação simples, quase caseira, já causa um desconforto imediato. Parece pouco, mas não é. Porque o filme entende uma coisa que muitos filmes de terror esqueceram: o medo não nasce necessariamente do que você pode ver. Nasce do que você imagina.
Início do filme já prende de cara pelo minimalismo. The Blair Witch Project não depende de monstros aparecendo na tela. O terror nasce do desconhecido, do silêncio e da sensação constante de estar sendo observado – (Foto: Reprodução)
Não que não seja massa ver toda a estética fantasmagórica de um Pennywise de IT: A Coisa ou até mesmo do Creeper de Olhos Famintos (Jeepers Creepers), mas não ver e apenas imaginar tem lá as suas vantagens. E é justamente aí que mora a genialidade do longa.
Muita gente critica o filme por ser lento, por “não acontecer nada” ou até pelo fato de a bruxa nunca aparecer. Só que essa é exatamente a proposta. Não existe uma criatura pulando na tela para assustar o espectador. O terror aqui é psicológico. É o imaginário trabalhando o tempo inteiro.
Você cria a Bruxa de Blair dentro da sua cabeça. Eu já criei a minha e ela permanece intacta até hoje.
E isso assusta muito mais.
Os símbolos presos nas árvores, os sons no meio da floresta, o desespero crescente dos personagens, a sensação de estarem completamente perdidos… Tudo é construído de forma extremamente crua. E talvez seja justamente essa crueza que torne tudo tão assustador.
Uma das coisas mais impressionantes em The Blair Witch Project é como os personagens parecem realmente perdidos, desesperados e emocionalmente esgotados. Não parece atuação em muitos momentos. Parece que estamos vendo pessoas reais desmoronando diante da câmera – (Foto: Reprodução)
Uma vez ouvi que “o genuíno assusta”. E faz sentido.
Porque A Bruxa de Blair parece verdadeiro o tempo inteiro. Os próprios atores seguram as câmeras, os diálogos parecem improvisados, as reações soam reais. Existe uma naturalidade tão forte que, em muitos momentos, parece que você está assistindo a um documentário proibido, e não a um filme. E isso muda completamente a experiência.
Claro que nem tudo funciona perfeitamente. Existem cenas que poderiam ser mais curtas e alguns momentos repetitivos acabam cansando um pouco. O excesso de caminhada, discussões e situações muito parecidas entre si fazem o ritmo oscilar em determinados trechos. Mas, sinceramente? Nada disso prejudica o impacto da obra.
Porque o legado de A Bruxa de Blair vai muito além da história que ele conta. O filme praticamente redefiniu o terror found footage como conhecemos hoje. Sem ele, dificilmente existiriam franquias como Atividade Paranormal (Paranormal Activity) (2007), REC (2007), e tantos outros filmes que tentaram reproduzir aquela sensação de realidade, e que vamos combinar uma coisa? Não causa o mesmo impacto… É bom, mas não é aquela Brastemp.
Heather é o tipo de protagonista que divide opiniões. Ao mesmo tempo em que você enxerga uma jovem estudante determinada e humana, também sente raiva dela por colocar o projeto acima de tudo. E talvez seja justamente isso que faz a personagem parecer tão real – (Foto: Reprodução)
E talvez a maior lição deixada pelo longa seja justamente essa, de que é possível fazer algo gigantesco com pouco recurso. Só para título de conhecimento o orçamento do filme foi estimado entre US$ 35 mil e US$ 60 mil – a gente costuma dizer que foi feito com “troco de pinga” e que arrecadou US$ 250 milhões a nível mundial. Um fenômeno.
Sem grandes efeitos especiais. Sem monstros elaborados. Sem orçamento milionário. Só com criatividade, atmosfera e uma galera iniciante, desde atores, diretores e uma produção querendo muito fazer a parada dar certo. Inclusive um final que olha… Dispensa comentários.
A cena final continua sendo uma das mais aterrorizantes da história do terror psicológico. E o mais curioso é que existe uma antiga lenda nos fóruns de cinema dizendo que aquele não seria o final original do filme, e que a decisão teria sido mudada poucos dias antes das gravações terminarem – (Foto: Reprodução)
Agora, o que aconteceu depois com a franquia é outra história. A Bruxa de Blair é apenas o primeiro, o resto é uma sucessão de fracassos e ideias mal elaboradas que enojam. Arrisco dizer que os fãs da franquia O Exorcista (The Exorcist) (1973) sabem bem do que eu estou falando.
E eu realmente acredito que daqui 30 anos ainda estaremos falando sobre A Bruxa de Blair.
Porque alguns filmes assustam. Outros entram para a história.
Quantos cortes ‘A Bruxa de Blair’ merece?
ItemInformaçãoTítulo originalThe Blair Witch Project (1999)DireçãoDaniel Myrick e Eduardo SánchezRoteiroDaniel Myrick e Eduardo SánchezElenco principalHeather Donahue, Michael C. Williams e Joshua LeonardGêneroTerror, suspense e found footage
Onde assistir?
Netflix, Lionsgate +, Apple TV, Claro TV+ e YouTube.
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