Pesquisa global mostra que a preocupação com o clima persiste, mas perdeu espaço entre as prioridades do cotidiano. (Foto: Werther Santana)O combate às mudanças climáticas continua sendo motivo de preocupação no Brasil e no mundo, mas perdeu espaço na lista de prioridades do dia a dia. É o que mostra uma pesquisa global da Ipsos, divulgada nesta segunda-feira, 20, ao indicar que a disposição para agir de forma imediata contra a crise climática recuou nos 31 países analisados. No Brasil, 71% dos entrevistados ainda defendem ação urgente, percentual acima da média global, mas menor do que os 77% registrados em 2021.
O dado revela um movimento duplo. De um lado, o tema continua forte no imaginário da população. De outro, passa a disputar espaço com preocupações mais imediatas, como custo de vida, segurança e instabilidade social. Essa mudança ajuda a explicar por que o clima segue sendo visto como um problema grave, mas nem sempre tratado como prioridade cotidiana.
A pesquisa People and Climate Change, realizada entre 23 de janeiro e 6 de fevereiro de 2026, mostra que a retração não foi isolada. Todos os países pesquisados registraram queda no indicador de urgência desde 2021. O recuo mais forte apareceu na Polônia, com baixa de 29 pontos porcentuais. No cenário global, 61% ainda dizem que é preciso agir imediatamente para enfrentar as mudanças climáticas.
O resultado chama atenção porque surge justamente em um período de agravamento dos sinais do aquecimento global. Segundo o texto original, os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados, com 2024 liderando esse ranking e 2023 aparecendo em segundo lugar, de acordo com dados do Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, da União Europeia, e da organização Berkeley Earth.
Especialistas ouvidos na reportagem avaliam que a queda não significa indiferença. O que está em curso, segundo essa leitura, é uma mudança na forma como a responsabilidade pela crise climática é distribuída. A cobrança individual continua existindo, mas cresce a expectativa para que governos e empresas assumam papel mais decisivo. No Brasil, essa percepção aparece com força: 71% dos entrevistados afirmam que o País deveria fazer mais para combater as mudanças climáticas, índice superior à média global, de 59%.
Para Diego Pagura, CEO da Ipsos Brasil, o fenômeno reflete uma alteração de mentalidade. “Mais do que uma queda no senso de responsabilidade, estamos vendo uma mudança no mindset. O senso de responsabilidade compartilhada se fortalece, com maior cobrança sobre empresas e governos”, afirmou.
Na avaliação dele, o contexto brasileiro ajuda a entender esse movimento. Violência, desigualdade e instabilidade política acabam competindo com a agenda climática. “Não estamos vendo apatia, mas uma combinação de fadiga com pragmatismo. O brasileiro continua preocupado, mas espera soluções mais estruturais e liderança mais clara”, disse.
A pesquisa identifica ainda um paradoxo importante. Embora exista consciência sobre a gravidade do problema, muitos consumidores esbarram em obstáculos concretos para mudar hábitos. Custos, falta de informação e conveniência dificultam a adoção de práticas mais sustentáveis. Em outras palavras, a preocupação existe, mas nem sempre se converte em comportamento diário.
A energia aparece como um dos pontos mais sensíveis desse debate. O levantamento mostra que 74% dos entrevistados no mundo estão preocupados com o aumento dos preços da energia, enquanto 63% temem a dependência de fontes estrangeiras. Ao mesmo tempo, 55% dizem aceitar pagar mais pela energia se isso garantir maior independência, mas metade prefere manter preços baixos, mesmo com maior emissão de carbono. O resultado expõe o conflito entre custo, segurança energética e sustentabilidade.
Outro dado relevante é o nível de confiança nas autoridades. Mais pessoas acreditam que seus governos não têm um plano claro para enfrentar a crise climática do que aquelas que pensam o contrário. A pesquisa aponta 32% de descrença, contra 30% de confiança. No caso do Brasil, mesmo após sediar a última COP, apenas 34% dos entrevistados veem o País como líder no combate à mudança climática, enquanto 31% discordam dessa visão.
Para Pagura, essa percepção limitada sobre a liderança brasileira passa por três fatores principais: falta de clareza sobre planos concretos, distância entre a agenda internacional e a vida real da população, além de uma expectativa alta ainda não correspondida. O Brasil aparece bem posicionado no debate global, mas isso não se traduz automaticamente em reconhecimento interno.
O estudo sugere, portanto, que o problema não é ausência de preocupação, mas dificuldade de transformar consciência em prioridade prática. O clima segue mobilizando atenção, especialmente entre os brasileiros, mas a cobrança agora mira menos o indivíduo isolado e mais a capacidade de governos e empresas de apresentar respostas consistentes, claras e visíveis para uma crise que continua avançando.
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