Alunas da Academia de Polícia Civil de Mato Grosso do Sul (Acadepol), em Campo Grande, denunciaram o delegado e ex-vereador Wellington de Oliveira por suposto assédio sexual e moral durante aulas do curso de formação.
Segundo os relatos, os episódios teriam ocorrido de forma recorrente desde o início das aulas, em 27 de janeiro deste ano. As estudantes, aprovadas no concurso realizado no fim de 2025, afirmam que o delegado adotava comportamento considerado inadequado em sala, com falas de cunho sexual, comentários ofensivos e discursos associados a conteúdo misógino e de baixo nível.
De acordo com as denunciantes, as declarações eram direcionadas principalmente às alunas, causando constrangimento e desconforto durante as atividades na academia.
Além das denúncias de assédio sexual, os relatos também apontam possível assédio moral. Em um dos episódios, o delegado teria dito: “Se não estão gostando vão reclamar, mas não vai dar em nada porque faço parte do Conselho da polícia”.
Wellington de Oliveira também integra a Ouvidoria da Polícia Civil e faz parte de um grupo técnico criado após o feminicídio da jornalista Vanessa Ricartes, o que, segundo as alunas, aumentou a sensação de intimidação.
Denúncia formal
A denúncia foi encaminhada à direção da Acadepol, que repassou o caso à Corregedoria da Polícia Civil. Uma ata foi elaborada e assinada pelos chamados “xerifes”, líderes de sala, além de vítimas e outros alunos ouvidos como testemunhas.
Todas as denunciantes foram ouvidas por uma delegada responsável pelo encaminhamento inicial do caso.
PCMS apura o caso
A Polícia Civil confirmou, em nota, que recebeu as denúncias e instaurou um Auto de Investigação Preliminar para apurar os fatos.
Segundo a instituição, estão sendo realizadas diligências, incluindo oitivas de vítimas e testemunhas, além da coleta de informações junto à Acadepol sobre a disciplina ministrada, critérios de avaliação e o contexto das aulas.
A corporação informou ainda que o delegado não ministra mais aulas na academia, já que a disciplina foi concluída antes da formalização das denúncias.
Confira a nota na íntegra:
“A Polícia Civil de Mato Grosso do Sul informa que recebeu as denúncias mencionadas e esclarece que os fatos foram formalmente encaminhados à Corregedoria-Geral da Polícia Civil, órgão competente para a apuração de condutas funcionais, tendo sido instaurado Auto de Investigação Preliminar (AIP), procedimento destinado à verificação inicial das circunstâncias noticiadas.
No curso da apuração preliminar, serão adotadas as diligências necessárias ao esclarecimento dos fatos, incluindo a oitiva das pessoas envolvidas, bem como a requisição de informações junto à Academia de Polícia Civil (ACADEPOL), especialmente no que se refere à disciplina ministrada, critérios de avaliação e demais elementos relacionados ao contexto relatado.
Esclarece-se, ainda, que a disciplina ministrada pelo aludido professor já se encontrava integralmente concluída quando do recebimento das denúncias, razão pela qual, no momento, não ministra mais aulas na ACADEPOL, bem como não participa atualmente de nenhuma outra atividade funcional relacionada às atividades acadêmicas em andamento na instituição.
A Polícia Civil ressalta que a apuração será conduzida com estrita observância dos princípios do devido processo legal, do contraditório e da ampla defesa, não sendo admitida a formação de juízo de valor antecipado antes da conclusão do procedimento, garantindo-se a imparcialidade e a regularidade na condução dos trabalhos pela Corregedoria-Geral.
A Instituição reafirma que toda notícia de eventual irregularidade é apurada com seriedade e responsabilidade, nos termos da legislação vigente e das normas disciplinares aplicáveis.”
Delegado nega acusações
Procurado, Wellington de Oliveira negou as acusações. Ele afirmou que lecionava a disciplina de teoria geral da investigação criminal, que utiliza exemplos práticos e situações reais para formação dos alunos.
Segundo o delegado, os conteúdos podem envolver temas sensíveis, mas não houve qualquer tipo de assédio. Ele alegou ainda que as falas foram retiradas de contexto.
Veja a declaração na íntegra:
“Bom, primeiro que, em hipótese alguma, aconteceu isso. Eu era professor porque acabaram já as disciplinas da academia, de teoria geral de investigação criminal, e essa teoria, essa disciplina, ela visa principalmente ensinar o policial, o novo policial, a pensar de forma lógica, com método hipotético, dedutivo, e os exemplos, eles são de cenários reais, são simulações do que acontece na nossa sociedade no dia a dia.
Alguns casos envolvem violência, envolvem temas sensíveis, mas em hipótese alguma houve assédio sexual ou moral em relação a ninguém. Pode ser que algum aluno tenha se sentido ofendido com algum exemplo e tenha feito essa denúncia na academia, que está sendo apurada agora pela Corregedoria Geral e eu vou aguardar a apuração dentro do devido processo legal.
O que aconteceu foram recortes e falas descontextualizadas, fragmentadas de exemplos que eu dei em sala de aula para justamente esclarecer a doutrina, os cenários que acontecem no dia a dia. Para você ter uma ideia, faz 20 anos que eu estou na mesma disciplina na academia de polícia e nunca tivemos problema em relação a isso.”
Trajetória política
Wellington de Oliveira foi eleito vereador em Campo Grande em 2016 e tentou a reeleição em 2020, mas não conseguiu retornar ao Legislativo municipal.
O caso segue sob investigação, com novas oitivas previstas para os próximos dias.
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