Uma vistoria técnica em um trecho da antiga Malha Oeste, em Campo Grande, acabou revelando um cenário que mistura retirada de trilhos, ocupação irregular de faixa ferroviária e suspeitas de avanço de empreendimento imobiliário de alto padrão sobre área da União.
A concessionária Rumo registrou em fevereiro deste ano um boletim de ocorrência por furto na Polícia Civil após identificar a ocupação irregular e a retirada não autorizada de cerca de 1,6 quilômetro de trilhos da linha férrea, na região de saída para Três Lagoas. O trecho é o mesmo que está sob investigação do Ministério Público Federal (MPF) e do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) por possíveis irregularidades na concessão e uso da área.
Segundo o registro feito no dia 9 de fevereiro, a empresa recebeu denúncia de que uma organização desconhecida estaria retirando trilhos entre os quilômetros 822 e 823, nas proximidades do condomínio particular, onde o metro quadrado é comercializado em média a R$ 2,5 mil.
No boletim, o agente de fiscalização de obras civis informou que a Rumo contratou a empresa de engenharia para verificar a denúncia. A inspeção confirmou que os trilhos vinham sendo removidos desde setembro de 2025, segundo relatos de moradores da região. Fotos anexadas ao BO mostram trechos sem trilhos e dormentes, além de vegetação suprimida e estruturas improvisadas no local.
O laudo técnico da empresa aponta “furto de trilhos” e ocupação da faixa de domínio ferroviária, com área total de 1.664 metros. Durante a vistoria, foi constatado que a retirada da estrutura metálica da via teria sido feita com uso de maçarico de oxicorte, além de trechos com trilhos remanescentes fora da posição original.
Ainda conforme o relatório, parte do material foi encontrada espalhada próximo a um estabelecimento da região. Um gerente ouvido no local afirmou que os trilhos teriam sido reunidos após limpeza da área e que antes estavam dispersos. Ele também relatou ter ouvido de terceiros que uma empresa de grande porte teria feito a retirada em setembro de 2025, com uso de caminhões tipo munck e maquinário pesado, sem identificar a responsável.
O mesmo relatório também registra a existência de intervenções na faixa ferroviária, incluindo abertura de passagem em nível de cerca de 10 metros e estruturas em alvenaria em área próxima ao futuro empreendimento imobiliário. Segundo o documento, essas intervenções permitiriam acesso direto ao condomínio em implantação.
A área em questão integra investigação do MPF e do MPMS, que apuram possível ocupação irregular de faixa de domínio da União e eventuais impactos ambientais. O MPMS instaurou procedimento para analisar a aprovação do loteamento, enquanto o MPF investiga a ausência de autorização da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) para intervenções no local.
Em razão das irregularidades, a ANTT aplicou multa à concessionária Rumo em abril, equivalente a 10% do valor da renda mensal do arrendamento ou do prejuízo causado, além de responsabilização por perdas e danos. A agência considerou a não interrupção das intervenções mesmo após a identificação do problema.
Em nota, a incorporadora responsável pelo empreendimento afirmou que não foi notificada oficialmente sobre qualquer investigação e disse cumprir todas as licenças exigidas nos seus projetos, reforçando que atua dentro da legalidade.
Após o registro do furto dos trilhos, a Rumo ingressou com ação de reintegração de posse em 8 de abril de 2026. No processo, a empresa afirma que a retirada total da estrutura ferroviária foi confirmada em vistoria técnica e pede a retomada da área, retirada de ocupações e autorização para remoção de eventuais estruturas irregulares, caso necessário. O caso ainda aguarda decisão da Justiça.
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