Fazenda Anacã (Foto: Fernão Penteado) No país com a maior biodiversidade do planeta, a discussão sobre preservação ambiental continua cercada de contrastes. De um lado, o Brasil concentra seis biomas, a maior floresta tropical do mundo, uma das maiores reservas de água doce do planeta e cerca de 20% de toda a biodiversidade conhecida. De outro, ainda convive com pressões crescentes sobre áreas protegidas, degradação ambiental e propostas legislativas que colocam em risco parte desse patrimônio natural. É nesse cenário que o turismo de natureza passa a ganhar relevância não apenas como atividade econômica, mas como instrumento de conservação.
A reflexão ganha força neste Dia da Terra, data que chama atenção para os limites ambientais já tensionados no planeta. O debate, no caso brasileiro, ocorre em um momento em que o país tenta conciliar protagonismo climático internacional com desafios internos persistentes. Mesmo com a queda do desmatamento em 2025, a degradação florestal na Amazônia Legal avançou 482% no mesmo período, impulsionada por queimadas e exploração madeireira. Ao mesmo tempo, 70 projetos de lei que ameaçam a proteção socioambiental tramitam no Congresso Nacional, segundo levantamento citado no texto-base.
Esse contraste ajuda a explicar por que o turismo de natureza vem sendo tratado por especialistas e empresários do setor como uma ferramenta estratégica. Mais do que movimentar a economia, a atividade cria valor em torno da floresta em pé, das unidades de conservação, dos rios, da fauna e da flora, associando geração de renda à proteção dos territórios.
Para Fernanda Dornelles, vice-presidente da Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura, a preservação já não pode ser vista apenas como pauta ambiental. “A preservação é muito mais do que uma pauta ambiental, e tem se mostrado, com urgência, como uma estratégia econômica viável para um país cuja riqueza real está viva em suas Unidades de Conservação, rios, fauna e flora. E entendemos que o ecoturismo é essencial nesse processo de conscientização e preparação para o futuro”, afirmou.
Praia Rica Expedições – Serras Gerais – Jalapão
O argumento se apoia também nos números. Em 2024, as áreas protegidas brasileiras registraram recorde histórico de visitação, com 25,5 milhões de turistas. No mesmo período, o ecoturismo manteve ritmo de crescimento acima da média mundial, avançando cerca de 30% ao ano no país, conforme dados da pesquisa Ecoar, realizada pelo Sebrae em parceria com o Ministério do Turismo e a Abeta. Segundo o levantamento, o segmento já responde por 60% do faturamento do setor turístico nacional e está presente em 65,9% das empresas da indústria de viagens.
A expansão revela uma mudança importante no comportamento do mercado e do público. Cresce a procura por hospedagens com práticas ambientais estruturadas, meios de transporte com menor pegada de carbono e experiências ligadas à preservação dos ecossistemas e à valorização cultural local. Para Luiz Vigna, diretor-executivo da Abeta, o turismo de natureza se destaca justamente por conectar proteção ambiental e desenvolvimento econômico de forma concreta. “Quando bem estruturado, o turismo de natureza conecta conservação e desenvolvimento de forma concreta, gerando renda, valorizando comunidades locais e criando incentivos diretos para manter áreas de preservação intactas. É uma atividade que transforma ativos naturais em oportunidades sustentáveis de longo prazo”, disse.
Na prática, esse modelo já aparece em experiências espalhadas pelo país. No Jalapão, por exemplo, a Praia Rica Expedições nasceu como reação ao turismo acelerado e superficial, baseado em visitas rápidas e consumo visual da paisagem. Com grupos menores, guias nativos e roteiros que privilegiam caminhadas e vivências ligadas à cultura local, a empresa passou a apostar em uma lógica oposta à da visita apressada. Em 2025, a Expedição Meu Jalapão foi eleita pela Embratur e pelo Sebrae como uma das 100 experiências mais qualificadas do Brasil para o turista internacional, com avaliação baseada em autenticidade, qualidade e sustentabilidade.
Segundo a proprietária, July da Costa, a proposta vai além da contemplação. “O destino deixa de ser apenas um lugar bonito e passa a ser entendido como um espaço que precisa ser preservado”, explicou. A empresa também estruturou atuação carbono neutro, compensando mais de 14 toneladas de emissões em 2025, e aboliu dos roteiros os fervedouros noturnos, prática aceita no mercado, mas considerada incompatível com a proteção da fauna.
Outro exemplo citado vem de Alta Floresta, no Mato Grosso, onde a Fazenda Anacã transformou uma área antes degradada pela pecuária em um território voltado à regeneração ambiental. Em cerca de 290 hectares, foram plantadas 70 mil árvores nativas, e a propriedade conquistou, em 2024, o título de Reserva Particular do Patrimônio Natural, categoria de conservação criada voluntariamente pelo proprietário e registrada de forma permanente.
Para Fernão Prado, idealizador do projeto, o turismo funciona como meio para um objetivo maior. “Entendemos que nossa responsabilidade, embora sejamos uma empresa de turismo, é trabalhar e vivenciar a governança do meio ambiente no nosso território”, afirmou. Em outro trecho, ele resume a lógica da proposta ao dizer que o visitante não deve sair apenas satisfeito, mas transformado pela experiência.
No Paraná, o Ninho do Corvo, em Prudentópolis, também reforça essa lógica ao associar conservação, energia limpa, gestão responsável de resíduos e fortalecimento da economia local. Desde 2007, a área funciona como Reserva Particular do Patrimônio Natural. O empreendimento produz praticamente toda a energia que consome por meio de painéis solares, utiliza recursos hídricos de forma consciente e prioriza insumos e mão de obra da região. “A ideia é fortalecer a economia da ponta, a economia de base. Isso também é preservar”, afirmou Márcio Miranda, responsável pelo espaço.
O que essas experiências mostram é que a preservação deixou de ser apenas um discurso associado à restrição e passou a ser, cada vez mais, um ativo econômico. Em vez de tratar a floresta, as cachoeiras, os rios e os territórios tradicionais como obstáculos ao desenvolvimento, o turismo de natureza aponta para uma leitura inversa: a de que o futuro econômico de muitas regiões depende justamente da capacidade de manter esses ambientes vivos e protegidos.
Esse é o gancho central que atravessa o debate neste Dia da Terra. Em meio a retrocessos legislativos, pressões sobre áreas protegidas e aos efeitos cada vez mais visíveis da crise climática, o turismo de natureza surge como uma das poucas atividades capazes de reunir, ao mesmo tempo, geração de renda, valorização territorial, consciência ambiental e proteção de longo prazo. No país mais biodiverso do planeta, transformar conservação em oportunidade talvez deixe de ser apenas uma escolha estratégica e passe a ser uma necessidade.
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