Equipe atua no combate às chamas em meio à fumaça intensa na região pantaneira (Foto: Bruno Rezende/Secom)O risco para Mato Grosso do Sul no segundo semestre pode estar menos no rótulo de um “super El Niño” e mais na combinação já conhecida entre calor, ar seco e vegetação vulnerável. A previsão oficial indica alta probabilidade de formação do fenômeno ao longo de 2026, mas ainda não confirma que ele será extremo. Mesmo assim, o cenário já é suficiente para acender o sinal de alerta em um período que costuma ser o mais delicado para incêndios florestais no Estado.
Nota técnica conjunta divulgada por INPE, Inmet, Funceme e Censipam aponta probabilidade superior a 80% de configuração do El Niño no segundo semestre de 2026, com possibilidade de persistência até o início de 2027. O mesmo documento, porém, faz uma ressalva importante: a intensidade do evento ainda não pode ser definida, embora exista a possibilidade de que ele alcance ao menos nível moderado. Em outras palavras, há sinal forte de formação do fenômeno, mas ainda não de um episódio extremo.
Para Mato Grosso do Sul, o impacto não pode ser resumido de forma apressada como se o El Niño, por si só, significasse seca automática. A própria nota técnica destaca que o Centro-Oeste não apresenta correlação tão elevada com episódios de El Niño ou La Niña quanto outras regiões do país. Ainda assim, o documento aponta tendência de temperaturas mais elevadas em toda a região, sobretudo entre o fim do inverno, a primavera e o verão. Esse aquecimento favorece a queda da umidade relativa do ar e eleva o risco de queimadas.
Mapa indica ondas de chuvas e calor que podem ser provocadas pelo El Niño (Foto: NOAA/Via MetSul)
É justamente nessa transição que mora a preocupação para o Estado. Antes de uma eventual regularização maior das chuvas, o segundo semestre costuma reunir os ingredientes mais perigosos para o avanço do fogo: vegetação ressecada, baixa umidade, altas temperaturas e maior facilidade de propagação das chamas. No Pantanal e em áreas de Cerrado, esse intervalo entre o pico da seca e a volta mais consistente da chuva pesa mais, na prática, do que o debate sobre o nome exato do fenômeno climático.
A nota também ajuda a explicar por que o cenário exige leitura mais cuidadosa. Em períodos de El Niño forte, observações empíricas indicam maior regularidade das chuvas no verão e no outono em Mato Grosso do Sul e em parte de Goiás. Esse comportamento pode aliviar o quadro mais adiante, mas não apaga o risco dos meses anteriores, quando o calor e o ar seco tendem a predominar.
Outro fator que sustenta a projeção de atenção é o comportamento do Pacífico equatorial. Segundo a nota técnica, as anomalias negativas da temperatura da superfície do mar perderam força em abril e deram lugar a áreas próximas da média ou acima dela, padrão compatível com o início do desenvolvimento do El Niño. A análise também identificou águas subsuperficiais mais quentes até cerca de 300 metros de profundidade, com valores superiores a 2°C em ampla faixa e pontos acima de 4°C, um sinal importante para a evolução do fenômeno nos próximos meses.
El Niño: principais impactos no planeta de junho a setembro (Imagem: Climatempo/NOAA)
Mesmo sem cravar um “super El Niño”, o Corpo de Bombeiros de Mato Grosso do Sul já trabalha com reforço de prevenção e resposta. A corporação informou que o fenômeno pode intensificar a possibilidade de incêndios florestais no Pantanal, no Cerrado e na Mata Atlântica no Estado, especialmente por favorecer temperaturas acima da média, ondas de calor e baixa umidade no período seco. O planejamento inclui bases avançadas, aeronaves e monitoramento para reduzir o tempo de resposta em áreas de difícil acesso.
Esse movimento não acontece por acaso. Mato Grosso do Sul ainda carrega o peso de temporadas recentes marcadas por grandes incêndios. Em 2020, o fogo consumiu mais de 3,9 milhões de hectares no Pantanal, segundo levantamento do LASA/UFRJ. Já em 2024, o Pantanal registrou cerca de 1,9 milhão de hectares queimados, de acordo com o Monitor do Fogo do MapBiomas. O histórico ajuda a explicar por que o Estado prefere se preparar antes que o cenário climático se consolide de vez.
No fim das contas, o alerta para Mato Grosso do Sul não depende apenas da confirmação de um evento extremo. O que já está posto é um quadro de alta probabilidade de El Niño no segundo semestre, combinado com tendência de temperaturas mais altas e condições que podem favorecer queimadas justamente na época mais sensível do ano. Para o Estado, o risco imediato está menos no “super” e mais no que o calendário climático pode entregar entre o fim do inverno e a primavera.
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