Em Naviraí, cidade de 53 mil habitantes no sul de Mato Grosso do Sul, o destino mais comum dos cenários de festas juninas, feiras científicas e saraus escolares era o lixo. Depois da apresentação, sobravam banners, placas, enfeites e estruturas ainda em bom estado — e a sensação de desperdício para quem trabalha em escolas públicas acostumadas a fazer muito com pouco.
Foi desse incômodo cotidiano que nasceu o SIRE, o Sistema de Reuso Escolar, criado pela professora Daniele Andressa Bassanesi na Escola Estadual Eurico Gaspar Dutra. Em 6 de maio de 2026, o projeto conquistou o 3º lugar nacional na categoria Jornada de Inclusão e Sustentabilidade na Educação, no Prêmio Educador Transformador, durante a Bett Brasil, em São Paulo.
A lógica do projeto é simples: uma escola cadastra materiais ociosos, outra solicita, usa e devolve. Como uma espécie de rede social do reaproveitamento escolar. “Essa é uma dor recorrente nas escolas”, resume Daniele.
Antes de transformar a ideia em plataforma, ela decidiu medir o tamanho do problema. Aplicou questionários em três escolas da rede estadual e ouviu 78 professores. O resultado confirmou o que ela já via nos corredores: materiais produzidos com esforço e dinheiro público eram descartados logo após os eventos.
A escola onde o projeto surgiu não é um laboratório de inovação com orçamento milionário. A Eurico Gaspar Dutra funciona na Rua Bororós, no centro de Naviraí, e existe desde 1978, quando foi criada por decreto estadual. Atende estudantes do Ensino Fundamental, Médio e EJA. Como tantas escolas públicas do interior brasileiro, convive diariamente com limitações orçamentárias e improvisos.
Daniele conhece bem esse cenário. Natural de Caxias do Sul (RS), chegou a Naviraí em 2015. Formada em Letras, Administração e Pedagogia, ela já vinha desenvolvendo projetos de inovação educacional. Em 2024, venceu nacionalmente o mesmo prêmio com o “Tony Bank”, iniciativa de educação financeira aplicada em outra escola estadual da cidade.
Agora, voltou ao pódio com uma ideia menos tecnológica do que prática: combater o desperdício dentro das próprias escolas. “Acreditamos que o projeto também ajudará os estudantes a desenvolver consciência sobre sustentabilidade”, afirma.
O reconhecimento veio em uma edição recorde do prêmio, organizado pelo Sebrae, Instituto Significare e Bett Brasil. Foram 5.560 projetos inscritos de todos os estados brasileiros. A categoria em que o SIRE foi premiado valoriza iniciativas de impacto social e sustentabilidade aplicadas à educação.
Enquanto grandes debates sobre economia circular ocupam fóruns internacionais, em Naviraí a discussão começou depois que alguém percebeu que ainda havia utilidade no material esquecido no fundo de uma sala escolar.
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